O ímpeto pelo clique

O ímpeto Pelo Clique
[tempo de leitura: 5 minutos]

O vazamento de um vídeo íntimo que contém uma cena de sexo entre a adolescente Tati e seu ex-namorado desencadeia os principais acontecimentos de Ferrugem (2018), longa de Aly Muritiba. O filme não só mostra os desdobramentos do ocorrido, como também se propõe a investigar a maneira como a geração “hiperconectada” se relaciona. A premissa do longa se assemelha com a de Depois de Lúcia (2012), filme mexicano dirigido por Michel Franco, também centrado em uma adolescente que, após ter um vídeo íntimo divulgado, sofre bullying pesado por parte dos seus colegas de escola. A produção mexicana, no entanto, impacta e atordoa mais o espectador. A representação de adolescentes de classe média em Ferrugem é verossímil e escapa de estereótipos, mas, para o espectador, não é tarefa fácil construir uma relação genuína de empatia com qualquer um dos personagens, já que os mesmos são construídos de maneira rasa.

O longa brasileiro é dividido em duas partes. A primeira, contada a partir de Tati (Tifanny Dopke), retrata o bullying que a protagonista passa a sofrer depois de ser exposta na internet. Na segunda, acompanhamos Renet (Giovanni de Lorenzi), um garoto recluso que se envolve brevemente com Tati e é um dos suspeitos de ter vazado o vídeo. Um acontecimento drástico separa os dois atos. A disparidade entre eles é evidente. O primeiro, colorido e dinâmico. O segundo, pela visão (ou pela culpa) de Renet, monocromático e lento.

A instantaneidade permeia a primeira parte do longa. Após o vazamento do vídeo, Tati escreve para Renet e, segundos depois, o chat do Facebook notifica: mensagem visualizada. Nada de resposta. A ansiedade logo consome a protagonista. “Você vai me ignorar?”. Nada de resposta. Em outra cena, é também uma notificação que dá o recado de que o vídeo de Tati está em um site pornô. Pouco tempo depois, a protagonista não resiste e checa a tal página, visualizando, inclusive, os comentários horrendos. O ímpeto de clicar não é facilmente controlável.

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Na imagem, Tati, a esquerda, e Renet, a direita, discutem

Quando Tati sai da sala de aula, após ser ridicularizada em uma apresentação de trabalho, os sons que escutamos são difusos. As imagens também não são nítidas, representando o olhar turvo característico de quem acabou de passar por uma situação humilhante. Envergonhada, a adolescente passa a faltar às aulas. O isolamento social é um sintoma recorrente do comportamento depressivo, que acomete também a garota Alejandra em Depois de Lúcia. A angústia está claramente presente em Tati, mas especialmente por conta do ritmo que dita o primeiro ato, não é possível conhecer a protagonista a fundo.

Os rabiscos do banheiro feminino da escola da garota, típicos de qualquer colégio do Ensino Médio, compõem uma ambientação pertinente para a narrativa. Enquanto no espelho está escrito “você é linda”, de batom (mensagem que recentemente passou a marcar presença em muitos banheiros por conta das crescentes discussões sobre empoderamento), no azulejo ao lado uma garota é chamada de “vadia“. A geração que compartilha textões feministas nas redes sociais ainda esbarra com comportamentos machistas arraigados. A amiga de Tati é fonte de apoio e sororidade, mas se sente na obrigação de obedecer ao namorado quando o mesmo diz que ela deveria ficar longe de sua colega.

O filme deixa claro que as consequências de um vídeo íntimo vazado são diferentes para homens e mulheres, já que o ex de Tati segue com sua vida normalmente (no máximo ouvindo um comentário engraçadinho sobre o tamanho de seu pênis), enquanto a garota é completamente exposta e estigmatizada. Não se pode afirmar, no entanto, que a discussão sobre o machismo é profunda. A raiz do preconceito não está em pauta.

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Aly Muritiba acerta em não mostrar os pais da protagonista. Os dois se contentam com respostas vagas da menina e não percebem que há algo de errado com o seu comportamento. Apesar de viverem na mesma casa (um ambiente bem clean, decorado com fotos grandes da filha na sala), a conexão entre a adolescente e os pais é praticamente inexistente.

Em Ferrugem, as ausências e os silêncios são mais potentes do que qualquer aparição ou diálogo. É justamente a partir de um ponto de virada impactante que o filme muda abruptamente, trazendo consciências pesadas e turvas. No segundo ato, após a tragédia, o pai de Renet leva a família para uma casa à beira-mar. A lentidão da segunda parte pretende evidenciar a aflição do jovem, assim como a direção de fotografia que expressa a melancolia ao captar as bem escolhidas e bonitas locações. Por outro lado, a cena em que o protagonista pede desculpas a Tati, por meio de um recado na caixa postal, soa tosca e quase irritante. Algumas perguntas importantes também não são respondidas, dentre elas: o que de fato motivou Renet a espalhar o vídeo? Impulso? Algum tipo de vingança?

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É interessante perceber que as personagens mulheres são mais empáticas do que os homens. Enquanto David, pai do jovem e também professor, se sente no direito de pegar e esconder o caderno de Tati, a fim de apagar indícios contra o filho, a mãe, Raquel, se impõe como um contraponto: “isso é justo com a menina?”. Neste momento, o tempo abre. Narrativa e estética dialogam constantemente, muitas vezes até de maneira óbvia (como nessa cena da discussão entre David e Clarice, em que a conexão entre desembaçar o vidro do carro e resolver a relação dos dois é explícita). O primo de Renet ridiculariza a atitude drástica de Tati, enquanto a irmã do protagonista demonstra, mesmo que de relance, ter alguma empatia com o ocorrido.

O sensacionalismo da mídia e a cultura do espetáculo rondam a narrativa. Um programa de televisão tem acesso às gravações da câmera da escola que gravaram a tragédia, o mesmo vídeo que, hora depois, viraliza no WhatsApp. O primo de Renet recebe o conteúdo e pretende consumi-lo como entretenimento. Renet, em um primeiro momento, se nega a ver as imagens, mas, em cena posterior, decide acessar o vídeo. Novamente, a ânsia pelo clique é voraz.

A segunda parte é contemplativa. O difícil é inferir que o jovem tem profundidade o suficiente para ser contemplado em planos tão longos. Fica a sensação de que Ferrugem apresenta dois filmes (muito diferentes) em um só. A disparidade entre um ato e outro não diz respeito apenas à mudança de protagonista, mas também ao ritmo, à montagem e paleta de cores. A transição é abrupta. O primeiro se aproxima de um episódio de Malhação, enquanto o segundo, mais sombrio, investiga um personagem sem conseguir adentrar de fato em seu universo.

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Se por um lado o longa acerta com sua direção cuidadosa e com o preciso trabalho de som, por outro peca com a construção dos personagens. Não só não é possível compreender as motivações dos mesmos mas o filme também acaba sofrendo com a superficialidade dos muitos debates apresentados, como a prática de slut shaming, o distanciamento entre pais e filhos, o isolamento social e uma possível depressão.


carolina cassese

estudante de Jornalismo, feminista, louca dos gatos, geminiana de sol e alma. apaixonada por mudanças e pelas palavras.

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