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A perversidade inerente a vida

[tempo de leitura: 3 minutos]

Entre transmissões geracionais, acasos e tragédias da vida, “O Diabo de Cada Dia” estuda o mal como denominador comum da existência humana.


TTaxar O Diabo de Cada Dia como um filme pessimista talvez soe mais pejorativo do que descritivo em relação ao trabalho de Antonio Campos (diretor do novo longa da Netflix). O fato é que Campos faz uma espécie de filme-tese que busca estudar o mal intrínseco à vivência humana, uma perversidade que acomete a todos como o denominador comum da existência.

Entre idas e vindas dos acasos da vida, Campos tem méritos em criar uma narrativa com uma passagem de tempo. Num primeiro momento, acompanhamos o personagem de Bill Skarsgård como símbolo de uma geração de adultos que lida com a violência presente no mundo ao final da Segunda Guerra. Em seguida, observamos a vivência do filho órfão deste personagem, um jovem violento e carregado de sofrimento que é interpretado por Tom Holland.

A trama de O Diabo de Cada Dia ainda conta com aparições de diversos outros personagens, todos bem interpretados por um elenco estrelado e talentoso. Porém, são estes dois personagens que suprimem a essência do relato geracional e perverso que o diretor se propõe a fazer.

Assim, Arvin (o personagem de Holland) cruza com a perversidade ao longo de toda sua vida. Esses encontros funcionam para evidenciar a preocupação de Campos em discutir e desconstruir uma imagem de bondade do “cidadão de bem” do interior dos EUA. A opção por localizar a trama entre duas cidades de Ohio e Virginia, bem no centro rural dos Estados Unidos, aponta para essa proposta do cineasta de tratar a violência como manifestante da essência maligna humana, numa forma de expurgar um sentimento presente a todo momento.

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Bill Skarsgård como Willard Russell e Michael Banks Repeta como Arvin Russell (9 anos), personagem de Tom Holland

Para isso, O Diabo de Cada Dia se aproveita dos acasos da vida que apresenta para desnudar figuras simbólicas da vida social. Por um lado, a narrativa tangencia a temática religiosa com a devoção cega do personagem de Harry Melling e do Pastor abusador interpretado por Robert Pattinson, que cometem atos horrendos em nome da fé. Por outro, trabalha com o policial corrupto (Sebastian Stan) e o veterano de guerra marcado pela violência, ao passo que também apresenta serial killers (Jason Clarke e Riley Keough) como o extremo oposto que representa uma maldade fetichista, oriunda do comportamento desviante em essência.

Deste relato, O Diabo de Cada Dia tem seu ruído mais latente na falta de naturalidade com que tudo é feito. Há tentativas de emular uma intimidade e um tom familiar no sotaque carregado dos atores, bem como na narração compassada como um relato oral passado por gerações. É curioso que, em uma narrativa que tangencia de alguma maneira a relação dos acasos e caminhos da vida, o diretor parece não dar espaço, justamente, para uma encenação mais orgânica.

Por mais que o elenco faça um excelente trabalho mimetizando o sotaque interiorano dos EUA, nessa representação de certa forma caricata – não no tom do filme, mas na própria sonoridade da fala – fica evidente uma representação mais engessada em toda a dinâmica do filme. Não só neste elemento, afinal, a própria presença do narrador onisciente das emoções e sentimentos de cada personagem em diversas sequências coloca tudo num viés de uma definição, quase que em uma predestinação pautada na violência e na maldade.

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Não é a toa que o filme abre e fecha com a iminência da guerra pairando sobre a atmosfera, fechando um ciclo de transmissão de um pai para um filho. Vivências marcadas pela dor, pela supressão e compressão de um sentimento de raiva disruptiva dentro de si mesmo e que se manifesta e esvai por meio da violência.

Afinal, O Diabo de Cada Dia evoca essa relação entre acaso e destino, entre uma expressão de comportamento cíclica motivada pelo sofrimento, pela dor e pela perversidade que estão postas nos encontros da vida. Tudo por um viés pessoal, escancarado nos rostos de seus bons atores e na narração eloquente que dita os caminhos de uma história já escrita.

João Dicker

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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