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O Apocalipse Nunca Foi Tão Engraçado

O apocalipse nunca foi tão engraçado

  • Filmes

Desde que a Marvel iniciou a construção do seu coeso universo cinematográfico, o Thor nunca foi propriamente representado. Seus dois primeiros longas individuais nunca conseguiram reproduzir a riqueza histórica e cultural que poderia ser aproveitada nas telas, ao mesmo tempo que as participações do herói nos filmes dos Vingadores servissem somente para fazer as devidas conexões entre o lado cósmico e o lado terráqueo do universo Marvel.

Toda essa inconsistência sempre partiu da dificuldade de representar o herói, que nunca teve um tom ou jornada bem definidos: ora era o príncipe asgardiano falastrão, fútil e descolado, ora apresentava responsabilidade e preocupações dramáticas e sérias demais. Agora, em Thor: Ragnarok, seu terceiro filme individual, o Deus do Trovão finalmente recebe uma representação digna, que apesar de extremamente desvirtuada em relação aos quadrinhos, transforma o personagem e o encaixa de maneira cômica e ácida no universo Marvel.

Desta forma, acompanhamos Thor (Chris Hemsworth), em uma jornada de procura de respostas a respeito do Ragnarok: o apocalipse nórdico. Ao retornar à Asgard, o herói descobre que seu irmão Loki (Tom Hiddleston) tomou o lugar de Odin (Antonhy Hopkins) no comando e na proteção dos 9 reinos. Neste cenário de bagunça e desatenção, Hela (Cate Blanchett), a deusa da morte, escapa de sua prisão e toma Asgard para si, expulsando os irmãos e matando todos aqueles que se opõem a ela. Assim, Thor se vê preso em um estranho planeta, onde precisa encontrar forças, agora sem o seu martelo que fora destruído pela antagonista, para retornar ao reino dos deuses e impedir que a vilã causa o Ragnarok.

Curiosamente, o enredo do longa se assemelha muito com o primeiro filme de Thor, de 2011, apresentando o herói preso fora de Asgard e precisando retornar para impedir o pior para o reino e seu povo. A diferença fundamental é que em Ragnarok a única jornada existente para o protagonista é a de regresso para casa, diferentemente do primeiro longa em que o Deus do Trovão passava por punições e aprendizados de humildade, em um arco dramático fraco e pouco crível. Agora, o roteiro de Eric Pearson, Christopher Yost e Craig Kyle, acerta ao trazer uma narrativa mais ágil e descomplicada, de acontecimentos simples e sem arcos dramáticos. A forma com que o filme não se leva a sério, quase que em uma paródia de si mesmo, encontra em Taika Waititi a mente perfeita para direção.

Responsável por O Que Fazemos na Sombras (2014) e The Hunt for the Wilderpeople (2016), o diretor trás consigo o seu tradicional humor ácido, irreverente e auto-depreciativo, para conduzir o longa com leveza e jocosidade. É admirável como Watiti consegue implementar sua identidade como cineasta na fórmula Marvel, fazendo com que Ragnarok seja o filme da Casa das Ideias que mais demonstre o traço autoral de seu diretor e que mais tenha personalidade. Ainda, O diretor se mostra confortável nas cenas de ação, sem explorar de cortes desnecessários ou movimentos de câmeras confusos, fazendo com que as sequências de combate sejam coloridas, divertidas e entretenham, apesar de não apresentarem inventividade ou nenhuma coreografia extraordinária.

Cate Blanchett é a primeira super vilã do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU, em inglês), interpretando Hela, que na mitologia nórdica é deusa do Reino dos Mortos

Todo humor do filme depende, também, das atuações de seu elenco, que entrega um trabalho preciso e consoante com a proposta do longa. Chris Hemsworth e Cate Blanchett demonstram total compreensão do tom e da abordagem necessárias para o filme, com o protagonista se mostrando mais a vontade do que nunca encontrando a caracterização perfeita de um Thor irreverente, bobo e cômico, fazendo humor não só com a punchline, mas com muita atuação corporal. Blanchett, brilhante como sempre, entrega uma vilã cartunesca e canastrona, que apesar de ser subaproveita pelo roteiro marca presença pela atuação expansiva da atriz e pelo visual estilizado do figurino. Jeff Goldblum trás carisma e personalidade para um Grão-Mestre unilateral, mas que na extravagância de seu figurino e na atuação magistral de Goldblum se torna um dos personagens mais cômicos do longa.

A parte técnica, inclusive, é um show a parte. A direção de arte se esmera na construção dos cenários e planetas diferentes, com uma Asgard sempre colorida e brilhante para demonstrar sua atmosfera divina, e um planeta Sakar recheado de cores vivas e saturadas que contrapõem o lixão cósmico que é. Toda a inspiração visual do longa remete ao trabalho de Jack Kirby, responsável por alguns dos melhores arcos do herói nos quadrinhos. A trilha sonora termina por agregar uma atmosfera oitentista ao filme, com sons tecnopops sintetizados que completam perfeitamente o ritmo aventuresco e gostoso da produção.

O que prejudica o longa é, ironicamente, sua maior virtude. O tom jocoso adotado é inegavelmente importante para o avanço narrativo e para as relações entre os personagens, principalmente na dinâmica de grupo criada entre o protagonista e o Hulk (Mark Ruffalo), mas acaba tirando o peso de qualquer atitude mais séria ou dramática do filme. Mesmo que a única personagem com alguma construção de jornada pessoal propriamente dita seja a Valquíria, vivida por Tessa Thompson, fica a sensação de que o longa deixa de aproveitar o conceito do Ragnarok e sua potencialidade cataclismática.

Ao final, mesmo que com algumas falhas na estrutura do roteiro e na falta de densidade dramática na narrativa, Thor: Ragnarok se assume como uma das melhores aventuras solos do universo Marvel, graças ao seu humor irreverente e sarcástico, as atuações precisas de seu elenco e a direção autoral e cheia de personalidade de um diretor que, ao saber inserir sua identidade como cineasta na fórmula reproduzida pelo estúdio, injeta frescor e fôlego na caminhada da Marvel nos cinemas.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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