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“Nomadland”: a sociedade em trânsito

[tempo de leitura: 4 minutos]

Em “Nomadland”, Chloé Zhao faz um tocante retrato, ao mesmo tempo íntimo e político, da relação de desamparo do proletariado dos EUA.


“Eu trabalhei numa empresa durante 20 anos. Meu amigo Bill trabalhava para  a mesma empresa. E… ele teve insuficiência hepática. Uma semana antes de se aposentar. O RH ligou para ele no hospital e disse: ‘Vamos falar sobre a sua aposentadoria’. Ele morreu 10 dias depois. Nunca teve a chance de usar o veleiro que ele comprou e ficou em sua garagem. E ele perdeu tudo. Então ele me disse antes de morrer: ‘só não perca tempo, garota. Não perca tempo’. Então me aposentei assim que pude. Não quero que meu veleiro esteja na garagem quando eu morrer. E não está. Meu veleiro está aqui no deserto”.

EEm torno de uma fogueira, um grupo compartilha histórias de vida. Ouvimos de alguém que desenvolveu estresse pós-traumático após a Guerra do Vietnã e de uma pessoa que perdeu a mãe e o pai num curto intervalo de tempo. Em seguida, é a vez da mulher parafraseada acima. O que todos têm em comum é justamente o fato de terem decidido tirar seus respectivos veleiros da garagem.

Baseado no livro homônimo de Jessica Bruder, o longa Nomadland é centrado na mudança de vida de Fern (Frances McDormand), uma mulher que, após ter a vida gravemente afetada pela crise econômica e perder tudo, decide morar numa van, se submetendo a curtos contratos de trabalho para poder conseguir alguma renda. A produção foi escrita, dirigida e editada por Chloé Zhao, jovem chinesa radicada nos Estados Unidos.

Logo nas primeiras tomadas, nos deparamos com paisagens de tirar o fôlego. O espectador se torna um companheiro de viagem de Fern: encaramos vastas locações e, em determinados momentos, sentimos um vazio – que não é necessariamente incômodo, mas sim ligado ao ato de contemplar. Uma decisão interessante da diretora é a de realizar cortes abruptos, muitas vezes de um diálogo para uma paisagem, o que nos permite ter certo espaço para assimilar a fala exposta anteriormente.

Na obra, é possível observar ainda diversos cruzamentos entre ficção e documentário. O segundo gênero se configura especialmente a partir de outra ótima escolha de Zhao, a de escalar verdadeiros nômades para o elenco. Os diálogos de Nomadland, portanto, soam bastante genuínos, e, dessa maneira, podemos entender verdadeiramente a razão deles serem itinerantes.

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Fern, brilhantemente interpretada por McDormand,  é justamente a nossa porta de entrada para esse mundo. Nossa protagonista é repleta de complexidade: uma mulher forte e cheia de fraquezas, decidida e ao mesmo tempo titubeante. Esses paradoxos dizem muito sobre o próprio filme, que é feliz ao passo que apresenta marcas de tristeza, é bastante intimista ao mesmo tempo em que retrata uma sociedade. No final das contas, essas posíveis contradições são uma força.

 

DEPOIS DA CRISE

“As casas abandonam a sim mesmas

fogem de si mesmas

um dia você retorna

e a casa não está lá

está apenas seu molde

casca ou carcaça

sai então à caça

da casa

em viagem

ou fica lá

onde já não está”

— “Como se fosse a casa (uma correspondência)”, de Ana Martins Marques

 

O abandono é um elemento importante a ser observado no filme. Os personagens foram abandonados pela sociedade, pelo Estado e, assim, passaram a ocupar espaços que também foram deixados. A partir de Nomadland, descobrimos um Estados Unidos vasto, ainda pouco explorado, com riquezas inesperadas a oferecer. A solidariedade é uma delas.

Fica claro, ainda, que aquelas pessoas perderam tudo não por “terem se esforçado pouco”, como alguns podem alegar. A personagem Linda May, por exemplo, expõe que trabalhou duro a vida toda e, na hora de se aposentar, se viu frustrada quando percebeu que receberia um valor baixíssimo.

Esse acontecimento é extremamente representativo de um país que vende um ideal de vida, o conhecido “sonho americano”. No livro A Tirania do Mérito, o autor Michael J. Sandel expõe que a retórica meritocrático é a espinha dorsal do discurso hegemônico estadunidense. “Em anos recentes, políticos de ambos os partidos reiteraram esse lema a ponto de quase se tornar um mantra (…) Ronald Reagan, George W. Bush e Marco Rubio entre os republicanos, e Bill Clinton, Barack Obama e Hillary Clinton entre os democratas, todos invoncaram-o”.

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Outro pano de fundo importante para a compreensão da realidade apresentada é a precarização do trabalho. Como defende a pesquisadora Vera Follain em seu livro A Ficção Equilibrista: Narrativa, Cotidiano e Político, o mundo do trabalho voltou a ser narrado no cinema a partir das crises do neoliberalismo.

Nomadland definitivamente se encaixa nesse grupo de filmes, especialmente porque boa parte do grupo retratado decidiu mudar de vida após a crise de 2008, responsável por desestruturar a vida de inúmeras famílias estadunidenses.

Em determinado momento do filme, o representante Bob Wells afirma: “Nós não apenas aceitamos a tirania do dólar, do mercado. Nós as abraçamos. Nós alegremente vestimos a sela da tirania do dólar e vivemos toda a nossa vida assim. Pensem como uma analogia a um burro de carga. Um burro de carga disposto a trabalhar até a morte e então ser colocado para fora. E é isso que acontece com muitos de nós. Se a sociedade quer nos abandonar, mandando a gente, burros de carga, para fora, nós temos que nos unir e cuidar uns dos outros”.

Ao registrar lindos atos de gentileza, Zhao deixa claro que é exatamente isso que o grupo faz: cuidam uns dos outros. Todos seguem suas respectivas jornadas individualmente, o que não significa, de forma alguma, que estejam sozinhos. Cada um, dentro de sua própria trilha, encontra mãos estendidas ao longo do caminho. É um paradoxo pensar que essas pessoas, que escolhem viver solitárias, talvez estejam menos inseridas na lógica do hiperindividualismo do que quem vive em sociedade.

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Ao ser perguntada por uma antiga aluna se ela é “homeless” (sem lar), Fern responde: “não sou sem lar, apenas sem casa. Não é mesma coisa, certo?”. E ao terminarmos Nomadland, sabemos a resposta: não, não é a mesma coisa.

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carolina cassese

estudante de Jornalismo, feminista, louca dos gatos, geminiana de sol e alma. apaixonada por mudanças e pelas palavras.

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