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A violência reveladora de “Justiça Brutal”

[tempo de leitura: 3 minutos]

Em exercício meticuloso de frontalidade, S. Craig Zahler faz de “Justiça Brutal” um retrato da violência e visceralidade na marginalização da sociedade.


ÉÉ um tanto quanto óbvio apontar que Justiça Brutal tem em sua estrutura uma relação direta com o cinema noir e a literatura policial pulp. O interessante dessa visão é perceber como S. Craig Zahler faz um filme muito preocupado com a forma, com um compromisso rigoroso e meticuloso da encenação que prioriza um retrato cru, violento e distante capaz de criar uma força muito reveladora.

O enredo remete a tradição do gênero policial por combinar diferentes elementos consagrados destas histórias: os detetives Brett Ridgeman (Mel Gibson) e Anthony Lurasetti (Vince Vaughn) são suspensos após o vazamento de um vídeo que mostra o comportamento violento e excessivo durante suas investigações. Sem seus empregos, a dupla – capitaneada por Ridgeman – cruza a linha da moralidade e recorre ao crime para garantir o sustento de suas famílias. Paralelamente, também acompanhamos a jornada de Henry (Tory Kittles), o recém-saído da cadeia que pega um último serviço como assaltante de banco para garantir o sustento para sua mãe e seu irmão mais novo cadeirante.

Desta estrutura conhecida de um gênero onde todos têm suas justificativas para quebrar a lei e optar pelo caminho do crime, Zahler trata tudo como muita personalidade e potência. Temos, então, uma encenação que captura a violência com uma distância precisamente calculada e que torna a experiência de Justiça Brutal muito mais forte.

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O diretor e roteirista não se interessa pela temática da violência como um questionamento sobre sua banalização ou por sua característica escatológica e catártica – algo que Tarantino toca em seus filmes, por exemplo. O interesse de Zahler posicionar a câmera forma seca, precisa e inabalável que, diferentemente do retrato de Tarantino, opta pela via oposta: o grande efeito da relação entre tema e forma não está na experiência catártica do espectador gerada pelo grafismo da violência, mas na visceralidade presente nos pequenos gestos e movimentos envolvidos em todas essas situações.

Por isso, a narrativa se desenvolve lentamente – na mesma velocidade da investigação particular dos detetives e da construção minuciosa do assalto ao banco que Henry está envolvido. O roteiro se permite o respiro e a lentidão porque a proposta da dramaturgia de Justiça Brutal é mesmo se fazer presente pela potência dos atos. Os planos são longos, frontais, diretos e objetivos porque há uma carga reveladora de uma agressividade inerente aquele mundo esperando para ser evocada.

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Ao mesmo tempo que há um clima melancólico enunciativo de uma tragédia, de um desfecho que não convergirá para o sucesso do plano das personagens centrais, o jogo de antecipação e suspense que Zahler faz é envolvente. O espectador pressente uma incessante certeza de que algo de errado acontecerá, mas o caminho que a narrativa toma consegue acessar os clichês das tramas policiais de novelas pulp na mesma medida em que se desvia das obviedades destas escolhas.

O que torna o longa mesmo tão interessante é o efeito que a frontalidade e o retrato cru propostos alcançam. Todos os três personagens são figuras complexas, de moralidade questionável e de contextos que não tentam soar como justificativas para os atos criminosos, mas que se apresentam como elementos formadores do caráter de cada um – e, obviamente, definidor das escolhas que são tomadas por cada um no clímax do longa.

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Ao final, Justiça Brutal tem um desfecho que sopra algum alívio e respiro a toda brutalidade que é apresentada anteriormente como uma recompensa ao espectador e ao personagem que melhor se adapta e se comporta frente as estruturas violentas e desoladoras da sociedade.


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joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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