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A burocrática cinebiografia de um revolucionário

[tempo de leitura: 3 minutos]

Em cinebiografia burocrática, Shaka King faz de “Judas e o Messias Negro” um retrato que transita entre o mito e homem de Fred Hampton.


OO que se mostra de mais interessante em Judas e o Messias Negro são as contradições que se fazem presente pelo caráter de denúncia biográfica do filme de Shaka King. A escolha do título é certeira em resumir a essência do longa e também o seu tom. Já que a história foca no caráter messiânico da figura de um dos personagens centrais, nada mais justo do que o retrato que evidencie as duas faces dessa moeda: a do líder de um grupo de seguidores e a de “vilão perigoso” para seus opositores.

As figuras que fazem parte dessa distinção são Fred Hampton (Daniel Kaluuya), o presidente do Partido dos Panteras Negras, e Bill O’Neal (LaKeith Stanfield), o chefe de segurança do partido que atuou como informante infiltrado para o FBI durante os anos 60. Desde o começo do longa, somos apresentados a uma visão dos personagens que os diferencia a todo momeno: O’Neall é um homem ordinário que acaba caindo nos planos do FBI por ser negro, enquanto Hampton é mostrado desde a sua primeira aparição como a figura imponente e eloquente que conquistava multidões.

O mais interessante aqui é como Shaka King se dispõe a mostrar essa figura, que para alguns (centralizado na figura do chefe do FBI) é um monstro violento que desafia os status quo e para outros é o líder revolucionário capaz de confrontar as estruturas opressoras com a força necessária. Nessa dicotomia um tanto quanto política e ideológica, Judas e O Messias Negro tem seus melhores momentos quando vemos essa dualidade tomar forma nos questionamentos internos de Bill O’Neall, que na medida em que se questiona quanto a sua posição de traidor em um movimento que luta por direitos para ele mesmo, passa a perceber o líder dos Panteras Negras de fato como um “irmão”.

Há, também, uma escolha curiosa por um retrato intimista da figura de Fred Hampton, que reforça como sua posição messiânica é construída por meio da sua relação com o povo que representava. Se a reivindicação passa pelo “Power to the People”, então nada mais justo do que mostrar como Hampton era de fato um homem do povo.

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Daniel Kaluuya, Ashton Sanders, Algee Smith, Dominique Thorne e Lakeith Stanfield, respectivamente

A grande contradição do longa é como King opta por uma encenação burocrática para retratar uma figura tão revolucionária. Falta a Judas e o Messias Negro uma direção mais propositiva, capaz de alçar o drama presente no texto a um outro patamar. Essa falta de energia fica evidente nas sequências em que Kaluuya tem espaço para brilhar com sua atuação eloquente e verborrágica, dando fôlego a uma narrativa que, na falta de personalidade, se assume como outra cinebiografia burocrática. De qualquer forma, o ator se aproveita de cada oportunidade que tem no palanque (literalmente) para dar força e expressividade necessária para a figura mitológica de Fred Hampton.

Por outro lado, LaKeith Stanfield tem uma atuação diametralmente oposta ao viver um homem mergulhado na supressão da própria angustia e insegurança causadas pelo aprofundamento de sua situação. É mérito do próprio Stanfield que o drama de O’Neall ganhe contornos de profundidade porque – novamente – falta estofo na condução de King para que a dramaturgia tome forma visualmente.

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Sobretudo, o que fica ao final de Judas e O Messias Negro é a sensação de que o filme podia mais como esse retrato biográfico da figura de Fred Hampton, da atuação dos Panteras Negras e da dinâmica social-racial dos EUA nos anos 60 e 70.

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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