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O drama de Peter Parker

[tempo de leitura: 4 minutos]

Entre o drama de Peter Parker e um visual desinteressante, “Homem-Aranha: Sem Volta para Casa” cresce com a humanidade de seu personagem.


ÉÉ bem sintomático que Homem-Aranha: Sem Volta para Casa assuma o posto “do filme que traz o público de volta ao cinema”, como tem sido dito. Se essa missão era algo que Christopher Nolan almejava com seu Tenet, minimamente a Marvel conseguiu entender a própria posição na indústria do cinema e passou a orquestrar suas produções não só na estrutura de “filme parque de diversões” (oi, Scorsese), mas também se apropriando da nostalgia de uma forma que evidencia como as coisas estão efêmeras mesmo.

Star Wars demorou anos pra voltar com as prequels e depois com a última trilogia. Os reboots das franquias dos anos 80 e 90 demoraram seus bons vinte e trinta anos pra retornar. A Marvel criou um dinâmica com o público que é tão apelativa para o sentimentalismo do fã que conseguiu gerar uma nostalgia imediata, de um filme para o outro. E Sem Volta para Casa existe para solidificar esse movimento no cenário contemporâneo do cinema blockbuster como fim e como meio.

 

Sem Volta Para Casa

No meio disso tudo, existe um filme que sofre com uma direção fraca visualmente, mas que dá conta de orquestrar um drama trágico e suficiente. A trama deste Homem-Aranha segue os acontecimentos imediatos de Longe de Casa (2019), com Peter Parker (Tom Holland) tendo que lidar com a perda do anonimato após a revelação de sua identidade por Mysterio (Jake Gyllenhal). Para isso, ele recorre ao Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) em busca de um feitiço que faça essa correção, o que dá errado e termina por abrir uma brecha no Multiverso. E assim, temos vilões de outras encarnações do Aranha presentes em sua realidade.

Se por um lado Jon Watts consegue conduzir o timing cômico e criar dinâmicas interessantes entre os personagens, falta estofo para transformar Homem-Aranha: Sem Volta para Casa em um filme visualmente inquietante. No fim das contas, o longa é mesmo mal decupado, especialmente por sofrer de uma falta de criatividade ou experiência para lidar com a tela verde e o VFX de uma forma mais interessante.

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O que atesta nesse sentido é o fato de que a sequência de ação mais interessante é a que o Peter de Tom Holland enfrenta o Duende Verde de Willem Dafoe em um embate mais corpulento. Watts consegue dar um senso de perigo que completa a urgência e o risco apresentado por todo contexto do longa.

 

Entre Falhas

O que acaba sendo inconstante deste Homem-Aranha é a proposta e resolução do drama em Sem Volta para Casa. Ao juntar o potencial de revisitar as dores e traumas de todos os personagens do filme (tanto heróis, quanto vilões), o filme ganha uma dimensão trágica que é bem resolvida e conduzida com o aprendizado máximo do personagem vivido por Holland (“com um grande poder, vem grandes responsabilidades“)  Se já foi muito discutido por fãs a respeito de que uma versão do personagem era “o melhor Peter Parker”, enquanto outra era “o melhor Homem-Aranha”, está nova trilogia se encerra com o equilíbrio perfeito desta dualidade que torna o herói tão humano e interessante.

É até curioso que o encontro mais esperado do filme (sim, aquele que todo fã esperava ver na tela) seja mais marcante pela possibilidade de troca humana e de experiências entre as três figuras envolvidas, do que exploradas na própria lógica de revisitação da iconografia da franquia ao longo dos anos. Isso aponta não só para um interesse do texto no viés humano tão fundamental para o personagem, mas também uma necessidade de se emprestar dos dramas vividos por Tobey Maguire e Andrew Garfield como versões anteriores do personagem para conseguir dar conta do impacto da trajetória do Peter de Holland.

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É como se o filme disposto a falar da tragédia de amadurecimento do jovem herói fosse posto de lado pela necessidade da pirotécnica do CGI como caminho para cenas fracas, sempre alavancadas pelo fan service. E em toda essa equação, Watts vai encontrando momentos de oxigenação da trama com as ocasiões em que o lado humano do Homem-Aranha vai tomando conta (o namoro com a MJ de Zendaya, a amizade com Ned, a relação com a Tia May de Marisa Tomei e o Happy Hogan de Jon Favreau) para entregar os melhores momentos do filme.

 

O Último Adeus

Homem-Aranha: Sem Volta para Casa abraça um pouco das três versões do personagem, em prol de uma jornada única de aprendizado para o Peter Parker de Tom Holland. Se há uma dificuldade de orquestrar tudo isso, é porque o diretor não consegue repetir o êxito de conduzir a narrativa com humanidade e emoção nas cenas de ação grandiosas que o longa pede. Mas se a grande causa de “filme evento” existe mais como acontecimento circunstancial do que na entrega apoteótica para o fã, a pequena causa de ser um belo filme humano e forte do Homem-Aranha acaba sobressaindo.

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Afinal, o “amigão da vizinhança” é mesmo o herói das pequenas causas e não há luta maior do que a correção dos traumas do passado e o enfrentamento das inseguranças do presente. E isso Homem-Aranha: Sem Volta para Casa faz muito bem.

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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