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Mostra Curta-Circuito 2020 / “Filme Demência” (1986)

[tempo de leitura: 4 minutos]

Não é à toa que Carlos Reichenbach é um dos mais interessantes cineastas brasileiros. O diretor possui um repertório artístico e cultural – especialmente cinematográfico e literário – apuradíssimo, utilizado com originalidade e experimentação para combinar estruturas e elementos do cinema clássico ao cinema moderno consolidado na década de 60. Filme Demência (1986) é um ponto de virada na filmografia de Reichenbach, que a partir daqui passa a trabalhar sua experimentação gramatical e linguística com o cinema em prol de um expurgo de inquietações mais instintivas e pessoais.

Contudo, não seria correto dizer que em Filme Demência o cineasta abre mão da essência de seu trabalho. Pelo contrário. É um longa-metragem sustentado na relação ambígua de uma mise-en-scène ao mesmo tempo direta e complexa, clara e simbólica, que marca a produção disruptiva de Reichenbach ao longo dos anos.

O que ele faz aqui é um retrato errático de um personagem inquieto, decaído e em constante movimento. Podemos considerar Filme Demência como uma releitura da obra literária “Fausto”, de Johann Goethe, para uma realidade brasileira dos anos 80.  O Fausto de Carlos Reichenbach, interpretado por Ênio Gonçalves, é um empresário falido e um homem fracassado que se sente responsável tanto pela falência da fábrica de cigarros que administrava, quanto pelo casamento que nutriu por anos e acaba de se corroer.

É no ápice desta espiral de derrotas da vida que encontramos nosso protagonista. Passamos, então, a acompanhá-lo vagando pelo mundo e por sua própria vida com uma inquietação latente.

O curioso é que por mais que Filme Demência tenha uma estrutura diegética mais “realista”, o longa se sustenta em diversas digressões formais (nas experimentações da linguagem) e dramáticas (nos simbolismos com a obra de Goethe e nos paralelos do retrato feito do Brasil). Assim, o diretor constrói uma narrativa fragmentada que nos imerge na jornada de deslocamento constante de Fausto em direção a seu fim melancólico e inevitável.

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Cartaz do filme

Logo na primeira cena, já entendemos que o protagonista sabe que está condenado. Acompanhamos uma praia deserta com uma garota vestida de branco. A figura retorna em diversos momentos da trama como um lembrete e um chamado para Fausto, reforçando como não há escapatória mesmo se mantendo em um movimento constante. Em seu percurso pelas ruas sujas de uma São Paulo desolada, ele cruza com diversas figuras que tentam tirá-lo de seu caminho tortuoso e ele, consciente e já inerte a sua condição, não se desvia do que lhe está posto.

De fato, Filme Demência é uma obra densa, sinuosa, complexa e que exige de seu espectador um repertório cultural e artístico um pouco mais aprofundado. Tal comentário reforça a noção de que o longa é um dos primeiros trabalhos de Reichenbach a assimilar seu próprio expurgo e uma conexão pessoal mais forte com as personagens e toda a narrativa. Como o próprio autor é uma fonte de conhecimento cinéfilo e literário, nada mais justo do que seu filme não só referenciar outras obras da Sétima Arte, mas também se apoiar em um drama que se consolida na relação com essa bagagem artística.

Tais referências e citações são espalhadas pela trama e pelo caminho percorrido por Fausto. Em uma de suas primeiras paradas, ele passa por um cinema que estampa cartazes dos filmes de Samuel Fuller (um dos cineastas preferidos de Carlos). No mesmo espaço é onde ele encontra Mefistófeles – o demônio do conto de Goethe – que aparece para buscar a alma do protagonista que, por sua vez, se recusa. E daqui se intensifica a profundidade do retrato do Fausto de Reichenback: o personagem se recusa a antecipar sua partida, porém, também recusa todos os convites e acasos que possibilitam uma mudança em seu percurso e que surgem durante a perambulação por São Paulo. Sobretudo, Fausto está mais do que ciente de seu iminente fim; ele já o aceita e o persegue.

Uma das grandes virtudes da estrutura narrativa de Filme Demência é a ambiguidade com que o roteiro nos apresenta o protagonista. Não sabemos com clareza “quem foi”, “quem é” e nem “quem poderia ser” o homem que perambula pela capital paulista em busca de um espaço-tempo místico que o receberá. Esse retrato evidencia o desolamento que arrebata Fausto, visto que tudo o que ele foi já não importa mais porque nada nem ninguém poderá impedi-lo se encontrar com Mefisto uma última vez naquela praia.

Essa sensação de um constante movimento é a essência estrutural de Filme Demência. A montagem dinâmica trabalha muito bem para combinar os inúmeros planos curtos e garantir um comportamento disruptivo para a narrativa, ao mesmo tempo em que torna tudo ágil e inquieto para dar ritmo ao longa.

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Mais do que isso, a câmera inquieta e ligeira capta também as interferências – por vezes até anacrônicas – de figuras, personagens, citações e ocasiões que não agregam nem diegeticamente, nem dramaticamente, apenas como uma experimentação formal do diretor. Contudo, tal comportamento não é exibicionista ou sem sentido. Pelo contrário. A consciência de Reichenbach para tal escolha é perceptível e o cineasta a faz para quebrar com a abordagem um pouco naturalista, especialmente da iluminação natural presente na fotografia, tornando tudo mais ambíguo, inquieto e simbólico.

De tantas leituras e interpretações que podem ser ditas a respeito de Filme Demência, há também um retrato político na encenação proposta. Fausto é uma vítima do contexto político, social e econômico do Brasil setentista – uma representação que a cada ano que passa segue como uma visão atemporal, atual e precisa da burguesia brasileira.

Sobretudo, Carlos Reichenbach cria uma obra-prima plural e profunda que confronta e retrata os movimentos da existência humana não como uma fuga da morte, mas como a tentativa de criar sentido para a vida. Assim como Filme Demência: uma interessante jornada de inquietação – humana e cinematográfica – que, desde seu início, está fadada a acabar.

MOSTRA CURTA CIRCUITO 2020
O longa Filme Demência faz parte da programação da Mostra Curta Circuito 2020, realizada entre os dias 10 e 16 de outubro. Com o tema Fé, Magia e Mistério no Cinema Brasileiro, a curadoria selecionou sete filmes que ilustram o rico diálogo humano com o inexplicável e o sobrenatural. Os filmes estarão durante 24h pela plataforma de streaming da Looke.

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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