Família, diversão e contemporaneidade

Família, Diversão E Contemporaneidade
[tempo de leitura: 4 minutos]

Quando os créditos de Os Incríveis (2004) terminaram de rolar, a sensação de qualquer espectador que se divertiu com as aventuras da família Pêra era de que em curto espaço de tempo voltaríamos a encontrar aqueles personagens. A forma abrupta com que o longa de 2004 acaba, mostrando a família se organizando para confrontar O Escavador, deixou um gostinho de quero mais. Curiosamente, e até mesmo de uma forma irritante, a Pixar/Disney optou por dar sequências a diversas outras franquias, como Toy Story, Carros e Procurando Nemo, antes de revisitar a família de super poderosos. Passados 14 anos de espera, Os Incríveis 2 nos proporciona o tão esperado reencontro com a família Pêra, mas, mesmo que partindo do exato momento em que deixamos os heróis em 2004, atualizando os temas que permeiam a produção.

Desta forma, acompanhamos os heróis sendo obrigados a viver no anonimato e proibidos de exercer o seu lado “super” devido aos possíveis acidentes que ocorrem quando tentam salvar o mundo. Partindo de uma iniciativa privada motivada por um milionário, a Mulher-Elástica é escolhida como a heroína ideal para carregar uma câmera capaz de transmitir para as pessoas comuns a sensação de heroísmo e altruísmo que existe em seu trabalho, para tentar colocar os heróis novamente nos holofotes da sociedade. Com seu novo emprego, ocorre uma inversão dos papéis existentes no primeiro longa com o Sr.Incrível se vendo obrigado a ficar em casa para cuidar de Flecha, Violeta e Zezé, enquanto a Mulher-Elástica assume seu novo emprego e uma posição de glamour social.

Por se tratar de um filme com assinatura da Pixar, era de se esperar que por trás de toda fofura, humor e experiência escapista prazerosa existira um discurso ou temática mais sóbria sendo trabalhada. E nas mãos de Brad Bird, talvez um dos melhores diretores e roteiristas de animações da indústria – pense que ele é o responsável pelo primeiro Os Incríveis, Ratatouille (2007) e O Gigante de Ferro (1999) – esse trabalho de temas complexos se dá de forma divertida, contemporânea e fugindo de qualquer didatismo pedante. Existe uma clara representação de empoderamento feminino em toda jornada de Helena como heroína e protagonista, além de trabalhar também outras personagens femininas de maneira interessante, principalmente a dinâmica existente entre a Mulher-Elástica e Evelyn Deavor.

Ainda, Bird levanta questões relevantes a respeito da relação do ser humano com os aparelhos tecnológicos personificando os apontamentos a respeito da dependência de tablets, telefones e telas dos mais variados tamanhos na imagem do antagonista do longa, O Screenslaver, que apesar de ser um vilão previsível e fraco possui um visual interessante e acaba proporcionando sequências de ação muito bem dirigidas. Sobra tempo também para trabalhar com um roteiro divertidíssimo, engraçado e leve, que trabalha a dinâmica familiar dos Pêra de forma que as dificuldades, desencontros e cometimentos existentes em uma família venham a tona.

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Na sequência, Beto é quem fica em casa cuidando das crianças, enquanto Helena sai para salvar o mundo

Bird entrega um apuro estético em toda a parte visual do longa. A maneira com que trabalha o uso da luz em diversas das cenas é impressionante, criando diferenças de iluminação que permitem mudanças na atmosfera e clima do longa, ao mesmo tempo que cria possibilidades de demonstrar ainda mais como o avanço tecnológico na produção de animações consegue criar cores e texturas tão vivas – méritos para Erik Smitt, responsável pela iluminação na cinematografia. A caracterização dos personagens ainda mantém os traços que tornam todos os personagens um pouco desajeitados e os prédios e ambientações em uma combinação de mundo futurista com cores e traços sessentistas, ao mesmo tempo que agregam uma verossimilhança admirável.

Em sua veia mais escapista o filme também se destaca nas sequências de ação extremamente bem dirigidas, seja em larga escala como no confronto contra o Escavador no primeiro ato, trazendo para a tela todo o escopo de grandiosidade existente no gênero de super-herói da atualidade, ou seja em uma pequena escala que demonstra a astúcia de brincar com as regras do gênero ao colocar Zezé para experimentar seus poderes em um confronto contra um guaxinim no quintal. O bebê, inclusive, é um dos destaques do filme, proporcionando as cenas mais engraçadas e o humor mais equilibrado que funciona pela fofura e se manifestando tanto visualmente como em expressões sonoras altamente relacionáveis.

A trilha de Michael Giacchino é certeira nos momentos que evoca a nostalgia eminente na película, ao passo que também contribui para o clima aventuresco das sequências de ação e para os momentos de apreensão nas cenas detetivescas, especialmente quando acompanhamos a Mulher-Elástica em suas novas missões. É realmente um trabalho irretocável em todos os aspectos técnicos do longa, elogio que também se estende ao divertido, tocante, emocionante e bonito curta de abertura, intitulado Bao e dirigido por Domee Shi, que também trabalha com a temática familiar.

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Depois de 14 longos anos, Os Incríveis 2 chega as telas utilizando do que a Pixar tem de melhor para combinar nostalgia e contemporaneidade, animação e realidade, ação e humor, em um filme que entende que sua maior virtude reside na verdade existente nas relações de seus personagens e no maior ato heroico de todos: viver em família.


joão dicker

com 23 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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