Escuridão predestinada

Escuridão Predestinada
[tempo de leitura: 4 minutos]

As primeiras cenas de O Destino de uma Nação (2017) revelam imagens de arquivo de um exército marchando sob o discurso de um temido ditador. A ambientação não poderia ser mais sombria. Filmes sobre a Segunda Guerra sempre serão um terreno fértil para discutir os contextos da vida civilizada; trata-se de um episódio amargamente definitivo na história da humanidade. Como toda narrativa, precisamos de heróis e vilões. No referido caso, precisamos de líderes, de guias, de uma ilhota luminosa num oceano de escuridão, e existem caminhos fáceis para escolhê-los e prosseguir com a trama. Entretanto, usufruindo de sutil ousadia, O Destino de uma Nação direciona seus holofotes para uma improvável razão: a voz de uma população.

Estrelando Gary Oldman no papel de Winston Churchill, acompanhamos sua jornada como recém nomeado primeiro-ministro durante alguns dias do ano de 1940. O exército nazista havia conquistado territórios de países estrategicamente importantes e se consolidou como uma ameaça direta ao território britânico. Em meio aos conflitos internos do parlamento, à insegurança da realeza e aos temores enfrentados pelas tropas no continente, Churchill precisa articular corretamente a situação para manter a ordem do país.

Joe Wright é famoso pelos seus “oscar-baits”: filmes produzidos com tamanho cuidado estético e publicitário que a indicação às categorias do prêmio da academia acaba se tornando um lugar comum. Alguns exemplos de trabalhos do diretor incluem Jane Eyre (2011), Anna Karenina (2012), Desejo & Reparação (2007) e Orgulho & Preconceito (2005). Nem todo “oscar-bait” é ruim, mas a maioria costuma ser acomodada, inofensiva e pouco impactante sob a ótica de tempos posteriores. Não me julgarei responsável por dizer qual o futuro de O Destino de Uma Nação. Me atentarei às impressões iniciais.

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A narrativa não é fácil. São muitos eventos para desenvolver e o filme não consegue se livrar de extensos diálogos expositivos, repetitivos e, muitas vezes, enfadonhos. Um filme que pode parecer necessitado de ritmo. A escolha de marcar a passagem dos dias consegue aliar didatismo ingênuo com um toque de maestria, ao embutir efeitos sonoros que me pareceram o de caixões fechando.

Contudo, temos um protagonista dotado de carisma verossímil e retratado com uma imponência ímpar. Gary Oldman está espetacular; irreconhecível diante da maquiagem ultra-realista, o ator impressiona por aliar uma de suas principais habilidades (discursos rigorosos e esbravejados) com um inesperado timing cômico. Sua dedicação é genuína, e se não é o melhor papel de sua carreira, pelo menos é um dos mais merecidos destaques.

Estendo meus elogios ao elenco de forma geral. Ben Mendelsohn como Rei George VI e Kristin Scott Thomas como Clementine Churchill estão afinadíssimos. O primeiro demonstra articulação certeira na voz e na postura para realçar suas incertezas diante do papel real, características que sempre foram a marca inconfundível do monarca. A segunda é competente ao embutir personalidade a uma figura predestinada ao segundo plano. Arrisco dizer que, se passamos a enxergar as principais fraquezas do protagonista, algo fundamental para a nossa imersão na narrativa, isso se deve majoritariamente às recaídas emocionais diante de sua amante.

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Gary Oldman e Kristin Scott Thomas como Winston e Clementine Churchill, respectivamente

Todo esse desenvolvimento de personagens não teria o mesmo sucesso sem os cuidados impecáveis com a captação das imagens e a devida iluminação, responsabilidade do diretor de fotografia Bruno Delbonnel (responsável também por Amélie Poulain, Harry Potter e o Enigma do Príncipe e Inside Llewyn Davis). A maneira como são aplicadas diferentes posições de luz para representar Churchill denota uma vontade de retratar o político em todos os seus espectros. Temos uma insistência em internas rodadas em planos abertos com um ou dois focos de luz sobre algum personagem – o primeiro encontro de Churchill com o Rei é o exemplo-chave: são ícones, idealizações, antro de esperanças depositadas em figuras singulares. Agora, compare esse plano com o maravilhoso momento em que o primeiro-ministro encontra-se sozinho após uma conversa telefônica, sem solução aparente para a crise que enfrenta. A força do filme reside nesses contrapontos.

Igualmente insistente são os plongées absolutos, com alguns deles aliando efeitos visuais e fotografia ao posicionar os personagens como meros pontinhos num mapa fadado à destruição. Contudo, os trackings que pintam os cidadãos comuns de Londres me pareceram mais bem aplicados. Intercalando com a câmera subjetiva, cabe ao político identificar ali uma ferramenta real para a tomada de decisões.

Diferente do belo, porém apático, Lincoln, de Steven Spielberg, o filme de Joe Wright convence quando posiciona Churchill no papel de observador, vide a maravilhosa cena do metrô. Méritos também para a atriz Lily James, que contribui bastante na humanização do personagem principal ao se apresentar como Elizabeth Layton, uma simpática assistente pessoal e datilógrafa sem floreios artificiais e representada com o charme do cidadão comum. Ouso afirmar que o filme poderia ter sido muito maior se trabalhasse aquela moça como a verdadeira protagonista.

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Gary Oldman como Winston Churchill, em destaque, e Lily James, como Elizabeth Layton, ao fundo

A recriação de época é eficiente, como toda produção do tipo costuma ser. Nada chegou a me impressionar de fato, com exceção da biblioteca particular no quarto de Churchill, da sala de mapas e de obras de arte que, em determinado momento no terceiro ato, aparecem curiosamente deitadas sobre algum móvel em vez de penduradas na parede. A trilha de Dario Marianelli merece aplausos por realçar a força das imagens com arpejos densos de piano e a ênfase dada aos staccatos graves. As leves melodias de sopros (evidente na peça “Winston and George”) ajudam a equilibrar a situação. Se em alguns momentos parece incessante, a ausência da trilha em certas sequências finais são um componente-chave para criar as fortes emoções que acompanham o desfecho do filme.

Com uma elegância admirável e demonstrando muito mais conteúdo do que parecia ter, O Destino de Uma Nação constitui poderosa representação. Suas maiores forças residem na confiança de um líder indeciso sobre um herói improvável e como isso reverberou para além de seu tempo. É, definitivamente, uma história advinda dos tempos mais nebulosos. Só não lhe direi qual deles.


Giulio Bonanno

giulio bonanno

eterno aprendiz no mundo que o cerca. fã de Cinema, Música e Artes em geral, está sempre à procura de novas apreciações. cruzeirense desde criança, nerd desde berço e mineiro desde sempre.

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