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“Eduardo e Mônica”: a complexidade dos protagonistas da canção

[tempo de leitura: 5 minutos]

Dando vida a canção, “Eduardo e Mônica” transforma a faixa de Renato Russo em uma comédia romântica cativante, mas sem atualizações de época.


AA história do casal improvável está no imaginário coletivo do povo brasileiro desde 1986, quando Renato Russo lançou Eduardo e Mônica. Você não precisa ser fã de Legião Urbana ou ter o hábito de ouvir músicas nacionais, mas certamente consegue cantarolar alguns trechos.

Já faz um tempo que haviam especulações sobre um longa com a temática da canção. Em 2011, a operadora VIVO lançou um filme publicitário com os personagens Eduardo e Mônica, com a narrativa girando em torno do casal conversando pelo celular. Deu cara e corpo ao casal, mas um vídeo de quatro minutos não é o suficiente para torná-lo real.

Em 2013, outra música famosa de Renato Russo, que também segue esse estilo de história, ganhou filme. Faroeste Caboclo, na realidade, já dá a sensação de ser o roteiro de um curta. São nove minutos contando a jornada de João de Santo Cristo com muitos detalhes. Praticamente um audiolivro. Não sei porque demorou tanto para ser lançado, considerando que a canção é de 1987. Talvez por medo de uma recepção negativa, já que é algo tão presente na memória do povo. Não sei dizer. Mas eventualmente foi para as telas, sob direção de René Sampaio, que também assumiu a ideia de dar vida a Eduardo e Mônica.

O lançamento estava marcado para 2021, mas com a pandemia e a reabertura dos cinemas com filmes já especulados como sucessos de bilheteria, como Homem Aranha: Sem Volta Para Casa, acabou saindo só em janeiro de 2022. Antes tarde do que nunca, certo?

 

Eduardo e Mônica

A história se passa na Brasília dos anos 80, assim como a música. Eduardo (Gabriel Leone) é um adolescente de 16 anos super desengonçado, com aparelhos nos dentes, muitas espinhas e aquele jeito bobo e inocente. Seu amigo do cursinho, Inácio (Victor Lamoglia), o convida para ir numa “festa estranha com gente esquisita” — onde ele conhece Mônica (Alice Braga). Ela é o extremo oposto de Eduardo, claro. Com seus 20 e poucos anos, era séria, introspectiva e de poucas palavras.

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Ambos acabam se encontrando novamente e, pelo ritmo da conversa, é óbvio que eles não têm nada em comum. Mônica já deixa claro que nunca acontecerá nada, mas Eduardo não desiste e o resto vocês já devem imaginar.

 

Preenchendo Lacunas

A canção mostra todas as características que os fazem diferentes e conta um pouco de cada um, mas não o suficiente para ter história para um longa. Eduardo e Mônica desenvolve cada um deles paralelamente e dá a complexidade necessária para os personagens preencherem o mundo.

Além de estudante de Medicina (como é retratada na música), Mônica também é artista performática. Sua mãe (Juliana Carneiro) é médica e o pai, recém-falecido, era artista. Ela vem de uma bolha da elite intelectual, que se posiciona contra a ditadura militar e tem ideais progressistas. Seu círculo de amigos é de artistas e idealistas, cheios de sonhos, a favor da liberdade e fugindo do que é tido como bom costume.

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Eduardo, por outro lado, foi criado pelo avô, que é militar. Seu Bira (Otávio Augusto) acredita que o regime militar salvou o Brasil da juventude imoral e, claro, não vê como um governo ditatorial. Não que Eduardo pense necessariamente assim, mas é a forma como ele foi criado. Extremo oposto da formação de Mônica.

Incluir o debate político na narrativa é muito importante. Eduardo e Mônica se passa enquanto borbulhavam os movimentos de redemocratização e, considerando que o Brasil atual passa por entraves ideológicos, não dá para ignorar. Tudo é política — inclusive e, principalmente, a arte.

 

Referências

Ainda que o roteiro siga um caminho com narrativas novas, vários elementos e referências à música aparecem. Tem que agradar os fãs e trazer nostalgia, né? Um cartaz do Bauhaus, exibições da Nouvelle Vague no cinema (possivelmente de um “filme do Godard“), livro do Manuel Bandeira, reprodução em maquete do Quarto em Arles de Van Gogh, tabuleiro de futebol-de-botão e novelas passando na TV.

Por mais que a diferença de idade e personalidade deles seja algo importante, senti que houve certo exagero em demonstrar isso. Sabemos que Eduardo é um adolescente e tem esse ar de inocente. Para além das espinhas e aparelho odontológico, ele precisava mesmo ter vários carrinhos de corrida, bonecos de Playmobil e um pôster da Malu Mader no quarto? Ou ficar comendo jujubas enquanto a Mônica fuma um cigarro? E, ao mesmo tempo que Mônica tem várias paixões, Eduardo não é fã de nada. Gosta do que toca no rádio e fica com aquela música da novela na cabeça.

Entendo que a música mostra uma Mônica bem mais interessante. Intelectual, politizada, amante das artes. E também que o Eduardo era novo e talvez um tanto quanto inerte sobre o mundo para além do que ele conhecia, mas o pôster da Malu Mader e o Playmobil foram demais para mim. Tirando esse pequeno exagero de elementos, Eduardo e Mônica é um ótimo filme.

 

Balanço Final

Vi alguns comentários sobre o comercial da VIVO ser melhor, mas não tem a mínima condição de comparar um vídeo de quatro minutos com um longa de quase duas horas. Não tenho nem o que comentar sobre isso.

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Alice e Gabriel têm uma química excelente. É muito bonito ver os dois juntos naquele universo particular que criaram. Eduardo é entregue e completamente apaixonado, ao passo que Mônica, apesar de ser bem fria, abaixa a guarda e acaba deixando acontecer. Ela fala sobre tudo o que gosta e sabe, e ele ouve com toda a atenção e admiração.

Não consegui tirar os olhos de Alice. De alguma maneira, ela é exatamente a Mônica que eu construí na minha mente. Os gestos, olhares, falas, postura. Toda a performance sague como eu imaginei ao longo de tantos anos ouvindo a música.

Por ser uma comédia romântica, num tom ditado pela composição de Renato Russo, é esperado que o filme siga o protocolo de duas pessoas que se conhecem, apaixonam, surge um problema e depois tudo se ajeita. Mas a canção é exatamente assim, não poderia ser diferente.

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Confesso que quando Eduardo e Mônica terminou, eu queria um pouquinho mais. Uma cena do futuro, com planos concretizados. Só para sentir que, de fato, ficou tudo bem e para “dizer que não existe razão“.

mineira, jornalista e feminista. viciada em filmes adolescentes e de terror, amante de seriados e enaltecedora das divas pop. tanto 8 quanto 80, apaixonada por palavras, colecionadora de cartão postal e louca dos tsurus de origami.

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