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Um filme para as eras

[tempo de leitura: 6 minutos]

“Duna”, adaptação do clássico da literatura sci-fi tem o tratamento precioso de Denis Villeneuve em uma verdadeira experiência cinematográfica.


HHá um momento em Duna em que mãe e filho, sozinhos no deserto, compartilham sentimentos múltiplos e angustiantes, enquanto caminham a passos desritmados, pois seguem preocupados com uma ameaça maior. Ameaça que consiste no elemento central para a história de Duna. O planeta Arrakis.

Hostil e completamente desértico, este planeta é o único lugar em que é possível encontrar a mercadoria mais valiosa do universo: uma especiaria coletada nas dunas de Arrakis e que é guardada por avassaladores e colossais vermes de areia. Essa especiaria pode ser usada para criar coisas simples mas também é um narcótico capaz de conceder poderes especiais aos seus usuários.

Com um elenco absolutamente estrelado e direção de Denis Villeneuve (de A Chegada e  Blade Runner: 2049), a empreitada da Warner Bros. junto à Legendary é a nova tentativa de adaptar o clássico da literatura sci-fi Duna, escrito por Frank Herbert em 1965, considerado por insiders da indústria do cinema como um dos projetos cinematográficos mais ambiciosos de sempre.

Isso porque desde os anos 70 e 80, figurões como Alejandro Jodorowsky e David Lynch tiveram a oportunidade de mergulhar na mitologia de Herbert para recriá-la, sem o menor sucesso, nas grandes telas. Além também, de outras interações menos pomposas, sobretudo games de estratégia em tempo real e adaptações para televisão que se transformaram em memorabílias de nicho.

 

Os Caminhos de Duna

Essencialmente, Duna conta a história do jovem lorde Paul Atreides (Timothée Chalamet), herdeiro da Casa Atreides, em jornada de autodescoberta quando a família é realocada à Arrakis para supervisionar as coletas de especiarias para o Império. Assombrado por sonhos misteriosos e dúvidas sobre sua própria origem, o jovem acompanha os primeiros passos de sua Casa na nova atribuição.

Falando em herança, cheio de frases de efeito e momentos íntimos, mas que reverberam por toda a trama, o roteiro escrito pelo diretor em conjunto com Jon Spaihts (Doutor Estranho) e Eric Roth (Nasce Uma Estrela) propõe uma trama que, apesar de conveniências e simplificações, que julgo acertadas, é a realização definitiva da visão de Herbert para o cinema.

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Originalmente denso, cheio de subjetividades, tramas políticas e religiosas, reviravoltas e construção de mundo pesado em seu material base, a Duna aqui contada por Villeneuve opta por focar mais em Paul, sua autodescoberta e na intensidade de seus relacionamentos.

Em especial, com sua mãe Lady Jessica (Rebecca Ferguson), seu pai Duke Leto (Oscar Isaac) e Arrakis e Chani (Zendaya), a garota misteriosa de seus sonhos e visões. Sim, Arrakis e Chani como uma coisa só em função da forte subjetividade onírica com a qual este relacionamento, como uma unidade, nos é apresentado.

 

Construção de Universo

O Império, ainda que pouco caracterizado por pessoas, é incluído como uma presença uniforme, poderosa e autoritária, que tem absoluto controle sobre o status quo daquele universo. A perversa Casa Harkonnen, recém removidos de Arrakis e aparentemente magoados por terem perdido o controle sob a coleta e distribuição da cobiçada especiaria, representados pela amedrentadora figura de seu impiedoso Barão (Stellan Skarsgård) e o visual industrial e padronizado de seu povo. As Bene Gesserit, ordem religiosa da qual Lady Jessica faz parte e é formada por mulheres sobre-humanas, capazes de persuadir e controlar pessoas com suas habilidades.

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Por fim, os Fremen, nativos de Arrakis, acólitos dos mitos e lendas que envolvem o planeta e sua especiaria. Porém, historicamente oprimidos por seus colonizadores, são especialmente capacitados para a vida no deserto e têm os olhos azulados por efeito colateral do contato constante com a especiaria.

Tais agentes e suas implicações, dadas as comparações adequadas, são análogos a contextos políticos, religiosos e socioeconômicos que existiram nos anos 60, mas que persistem ainda mais fortes hoje em função de como o século XX incendiou essas experiências no mundo pós-moderno. Afinal, ainda lidamos e observamos causa-consequência de tensões ocidente-oriente, exploração exaustiva de recursos naturais, conflitos religiosos, interpretações fundamentalistas e utilitaristas de textos sagrados, exploração de nações subdesenvolvidas.

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E ainda que obras sci-fi tenham o necessário hábito de propor soluções e ideias sobre como podemos enfrentar ou ressignificar esses contextos, Duna escolhe problematizar a relação do homem com o poder e como isso é a causa de tantas consequências.

 

A Beleza da Grandiosidade

Gosto muito de abordar toda a parte técnica dos filmes quando escrevo minhas resenhas. Mas aqui preciso tirar um parágrafo inteiro para destacar, sem hipérboles, que Duna merece ser visto na maior tela possível e com o som de melhor qualidade, pois é uma experiência visual e sensorial que justifica em si só o porquê ainda vamos ao cinema num mundo pandêmico.

E é aqui mesmo que reside todo o mérito de Villeneuve como diretor. As soluções visuais encontradas em conjunto com o seu frequente colaborador, o diretor de arte Patrice Vermette, fazem justiça a um mundo decadente e impossível em que o homem que domina a exploração espacial, tecnologias inimagináveis e capacidades sobre humanas conseguiu, ainda assim, retroceder à uma espécie de idade média intergaláctica.

A cinematografia de Greig Fraser age a favor da necessidade urgente de se construir cenários vastos, hostis, às vezes vazios que sustentam toda uma mitologia sendo construída bem na nossa frente. Cinematógrafo e diretor nos permitem compreender a dimensão do que está em tela e tornam acessível interpretar perfeitamente as mudanças no tom da trama de Duna. Ora crua e sombria, ora misteriosa.

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Sou aficionado por trilha sonora, mas tenho um relacionamento complicado com o Hans Zimmer. O reconheço como um compositor capaz de fazer trilhas sonoras incríveis, mas aqui, sigo sem entender sua obsessão por intensificar e musicalizar sons diegéticos ao invés de musicalizar, de fato, uma ópera espacial. Haviam, na verdade, infinitas possibilidades para encontrar melodias e temas sonoros que realçariam algumas das temáticas da própria trama.

Não descarto a trilha, no entanto, pois tem sim um aspecto dela que é muito imersivo e que harmoniza bem com o restante da proposta.

 

Match Artístico

E volto, por fim, minhas atenções ao elenco. Sou fã da obra de Herbert e, talvez, seja o único livro mais volumoso que li duas vezes seguidas na minha vida. O elenco apresenta bons matches para suas contrapartidas literárias, mas quero destacar que as atuações que colocam o filme em definitivo movimento, diante de outras boas performances, são as de Ferguson e Chalamet.

A Lady Jessica maternal e apegada aos seus compromissos com as Bene Gesserit é muito bem caracterizada graças a camadas e camadas de nuances que Ferguson consegue imprimir na personagem e que acaba transformando-a em uma figura até enigmática ao decorrer de Duna. E o Paul Atreides, interpretado por Chalamet, sustenta com tranquilidade o protagonismo depositado no personagem. Sua atuação ajuda a compreender o arco dramático e as mudanças pelas quais o personagem passa, além de nos permitir mergulhar em suas confusões mentais com os mesmos sentimentos de receio e dúvida que o cercam.

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Duna mescla bem momentos de contemplação com sequências tensas e cenas de ação. Esse ritmo permitiu meu engajamento fácil na história sem que as alternâncias soassem forçadas ou apenas convenientes. Apesar do elenco estrelado, tive um certo receio com eventuais preciosismos. Mas não, as demais performances são sempre muito pontuais e contribuem bastante para que haja fluidez.

Gosto muito do guerreiro leal e orgulhoso Duncan Idaho, de Jason Momoa e do sempre impecável Duke Leto, de Oscar Isaac. A ecologista Liet Kynes, vivida por Sharon Duncan-Brewster, segura a chave para uma transição narrativa muito importante no filme e faz total justiça ao papel já vivido pelo lendário e eterno Max Von Sydow na adaptação de Lynch.

Me pergunto, portanto, quando um filme acaba com a gente querendo mais é bom ou ruim? É uma pergunta ambígua, pois isso pode indicar que há ausência de conclusão ou que tudo o que vimos é tão intrigante que precisamos acompanhar o desenrolar da história.

Na era de séries com episódios disponíveis já no dia do lançamento e a possibilidade de maratonas intermináveis, estamos habituados a querer sempre o próximo capítulo e chegar a um desfecho o quanto antes. Duna me deixou com um gosto de quero mais, mas ao mesmo tempo satisfeito. Sem gulas, há muito para se digerir e apreciar nesta primeira parte.

Estamos, na vida real, concluindo um ciclo cercado de muitas incertezas e medo com a pandemia e crises políticas. E agora, numa possível retomada, somos convidados a experimentar uma história cuja principal frase de efeito e mensagem nos convida a ressignificar o medo e enfrentá-lo. Gosto de obras necessárias e, Duna, me soa bem necessária.

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Duna, de Denis Villeneuve, é uma verdadeira experiência cinematográfica. Talvez não para todos, mas certamente para aqueles que precisam (ou querem). Para os amantes da obra original, vão encontrar uma excelente oportunidade de expandir a concepção do livro para uma nova dimensão.

rafael bonanno

com 25, é um Jornalista em formação, com o Cinema como grande paixão. seus interesses também se estendem por produção de conteúdo relevante, storytelling, experiências interativas, narrativas transmídia, Fotografia e produção audiovisual.

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