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Doutor Castor e a documentação do jeitinho brasileiro

[tempo de leitura: 5 minutos]

“Doutor Castor” documenta a vida de uma figura folclórica do Rio de Janeiro em uma relação interessante com a própria cultua do país.


EExistem várias maneiras de se construir uma narrativa. Você pode trilhar um caminho inesperado para causar impacto, pode seguir algum formato consagrado para não se arriscar. Porém, essencialmente, é necessário ter uma boa história para contar. Sem um bom pano de fundo, a narrativa fica rasa, sem sentido e chata. A história do bicheiro Castor Gonçalves de Andrade e Silva (1926-1997) é uma narrativa incrível. Nascido e criado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Castor foi tudo: advogado, pai, filho, dirigente de futebol, patrono de escola de samba e também um “contraventor”. É nesse personagem complexo que o documentário Doutor Castor mergulha.

É o caso de simpatia ao bandido, onde um personagem, de ética duvidosa e atitudes discutíveis, ganha o amor da sua comunidade por fazer o bem. Poucos se importavam se a lavagem de dinheiro acontecia por meio do Jogo do Bicho – que curiosamente não tem “o castor”. Se o Bangu tivesse ganhado, se a Mocidade Independente de Padre Miguel desfilasse com toda alegria e poder na Sapucaí, certas atividades poderiam ser relevadas. E relevadas não apenas pelos moradores do Rio de Janeiro, que viam em Castor uma figura folclórica, algo como a personificação da “malandragem carioca”, mas também relevada pela mídia e pelo mundo político. Trata-se com clareza como era bem aceita a imagem do bicheiro, de bom trânsito em todas as áreas.

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Pôster do doc

O documentário que é dirigido por Marco Antonio Araujo e tem como roteiristas o próprio, além de Rodrigo Araújo, tem como trunfo principal o enorme acervo da Rede Globo. “Ao pesquisar o arquivo da Globo, me deparei com um tesouro: havia um material riquíssimo, coisas que nunca foram exibidas na TV”, afirma o diretor.

A construção do documentário em si não tem nada de inovador, o que não tem demérito nenhum, uma vez que as imagens e a quantidade de entrevistas (são mais de 30 pessoas entre amigos, ex-jogadores, membros da Segurança Pública) para ilustrar os diversos pontos de vista da vida de Castor de Andrade. A direção acerta na mixagem e na edição, uma vez que não se tem nenhum fio perdido dentro do documentário, que é capaz de amarrar bem a história.

Doutor Castor é dividido em quatro episódios que lhe garantem uma própria dinâmica na construção da linha do tempo com o personagem. Apoiado no acervo imenso do Grupo Globo, é contada a história da infância de Castor de Andrade e como já estava intrinsecamente ligado ao mundo carioca do futebol e da contravenção, uma vez que seu pai era Presidente do Bangu Atlético Clube, modesto clube da capital fluminense, além de dono de pontos de Jogo do Bicho. Com muitos depoimentos de jornalistas, que tiveram alguma ligação profissional com Castor, é elucidado como o personagem cresceu durante os anos 80. Aqui, a direção é corajosa em mostrar como a própria Globo dava espaço a este e outros personagens.

E com o mesmo cuidado que apresenta o crescimento, é esmiuçado os problemas que Castor enfrentou com a lei. Novamente é destaque o trabalho de pesquisa e produção da equipe do documentário que consegue retratar os momentos mais importantes da saga contra a lei que foi parte importante da vida de Castor durante os anos 90.

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De patrono da escola de samba bicampeã do carnaval passando a foragido da Justiça. Há depoimentos de delegados, promotores, juízes e de jornalistas que se envolveram nas questões criminais de Castor de Andrade.

Essa construção destaca que, em momento algum, o documentário esconde alguma faceta de seu personagem. Um ponto positivo nisso é a diversidade dos entrevistados e a liberdade que os mesmos tinham para falar. O julgamento fica por conta do espectador, é ele quem tira as próprias conclusões. É explorada a dicotomia entre o bem e o mal. O lado generoso do ‘patrono’, que distribuía dinheiro pela comunidade, não media esforços para ver no topo o seu clube de futebol e a sua escola de samba.

Mostra também o lado obscuro do contraventor, as inspirações nas relações das máfias italianas – sendo tratado até como capo di tutti capi, expressão utilizada para designar o “chefe de todos os chefes”. Ligações com políticos, extorsões, assassinatos e a maneira narcisista e truculenta como tratava alguns de seus desafetos – fossem eles inimigos no jogo do bicho ou árbitros de futebol.

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Depoimentos de jornalistas como Ali Kamel, atual diretor de Jornalismo da emissora carioca e de Boni então vice-presidente da Globo são importantes para a construção da história. Eles fazem um contraponto interessante: enquanto Ali Kamel afirma que “somos escravos dos tempos que vivemos’ para justificar o bom trânsito de Castor com a mídia”, Boni afirma que “a baboseira do politicamente incorreto” impediria a presença de Castor em programas como a roda de discussão entre presidentes da Escola de Samba do Rio, exibida na Globo, em 1990. Kamel reforça a personalidade passiva-agressiva do bicheiro enquanto Boni diz que “não é juiz e nunca foi delegado”, reforçando a malandragem do personagem principal do documentário.

Novamente, Doutor Castor escolhe se eximir de julgamentos. Não é tratado de maneira crítica o espaço dado à Castor e como isso apenas aumentava a sua presença como um patrono generoso, boa praça, suavizando o seu lado obscuro e mafioso.

Ao fim, a sensação é que a história de Castor de Andrade retrata, com certa fidelidade, o jeitinho brasileiro. Os crimes, por vezes eram perdoados, pela sua fama de boa praça. Um simpático senhor que, por trás do samba e do futebol, tinha um poderoso esquema de influência e poder, que trazia a ele a certeza da impunidade. Ali Kamel diz que é um ‘retrato da época’, apesar de que até os dias atuais, temos a mesma impressão: o poder e os bons relacionamentos podem salvar muitas cabeças.

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Vale ressaltar que essa é a primeira produção do núcleo de Esporte da Globo para o Globoplay. Sempre se reverencia produções estrangeiras que contam histórias importantes sobre personagens históricos. Aqui no Brasil, ainda se explora muito pouco essa alternativa nos principais veículos de mídia, com poucos documentários, filmes e seriados tratando de personagens próprios, elucidando histórias.

A Globo sempre foi conhecida por seu domínio midiático no Brasil e Doutor Castor mostra que pode ir além e aproveitar todo o seu aparato para contar histórias já conhecidas, de maneiras diferentes das já conhecidas.

leonardo parrela

um grande bobão que não entende de nada que escreve de tudo.

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