Revisitando e recontando histórias

Revisitando E Recontando Histórias
[tempo de leitura: 4 minutos]

Em “Destacamento Blood”, Spike Lee entrega um filme denso e impactante que evidencia sua habilidade como historiador da sociedade dos EUA.


R“Romances, filmes, TV, todos eles criaram uma narrativa falsa: o herói mítico branco (…) Veja os filmes que John Ford fez com John Wayne, que desumaniza os nativos americanos como selvagens, animais, monstros. Tem sido a mesma história com negros, mulheres, gays – todos nós fomos desumanizados”. A fala de Spike Lee em entrevista ao The New York Times revela bastante da sua vontade de contrapor discursos hegemônicos que invisibilizam determinadas parcelas da sociedade. Seu longa mais recente, Destacamento Blood, disponibilizado pela Netflix em 12 de junho, revisita a Guerra do Vietnã a partir da perspectiva de quatro homens negros, conhecidos como os Bloods, que viajam de volta ao local do conflito em busca dos restos mortais de um companheiro e também de um tesouro enterrado.

Se em Infiltrado na Klan, filme de 2018 assinado pelo diretor, vemos imagens reais no seu impactante final, em Destacamento Blood nos deparamos com cenas verídicas logo na abertura. São exibidos clipes de soldados negros em guerra e falas de ativistas como Malcolm X, Angela Davis e Stokely Carmichael. Essas imagens aparecem ao longo de toda a produção – um verdadeiro chamado para a realidade. Do começo ao fim do filme, é possível também notar referências a outras conhecidas produções, como Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola, e O Tesouro de Sierra Madre (1948), de John Huston. Aparecem ainda personalidades que se destacaram durante a Guerra do Vietnã, como a locutora vietnamita Hanoi Hannah, conhecida por se dirigir especialmente aos soldados negros.

Em Destacamento Blood o clima é mais descontraído na primeira hora de filme, quando nos familiarizamos com os personagens principais e percebemos as particularidades de cada membro da equipe. A partir da metade do longa, a carga dramática aumenta. Diversas discussões importantes emergem durante a busca dos quatro veteranos pelo tesouro: enquanto alguns defendem que o dinheiro deveria ir para a causa negra, outros preferem pensar em projetos pessoais. A representação de discordâncias entre membros de um mesmo grupo é importante para desconstruir a ideia de que parcelas minoritárias são integradas por pessoas que pensam sempre de forma homogênea. Muito se infere sobre o que querem “as mulheres”, “os negros”, “os membros da comunidade LGBTQIAP+“, porém é importante considerar as individualidades, além de todos os outros recortes existentes.

Spike Lee consegue tratar de diversas pautas com complexidade e sem nenhum tipo de moralismo. O fato de Paul, personagem interpretado por Delroy Lindo, ser um apoiador de Donald Trump e utilizar o boné com o slogan Make America Great Again traduz bem a multiplicidade de fatores que caracterizam um posicionamento político e contraria a ideia reducionista de que todos os apoiadores da chamada extrema-direita são brancos e privilegiados. Não é, de forma alguma, uma maneira de responsabilizar os oprimidos pela ascensão do opressor, mas sim uma forma de complexificar o debate e entender como discursos impregnados de autoritarismo conseguem dialogar com diversas parcelas da população pelos mais variados motivos.

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A luta racial definitivamente é central de Destacamento Blood, que também aborda pautas relacionadas à própria Guerra do Vietnã, como o sentimento anticomunista, o militarismo e o imperialismo. O último tema está presente em outros trabalhos do diretor, como Faça A Coisa Certa (1989). Em uma das cenas do longa, o personagem Mookie, casado com uma imigrante latina, diz: “Inglês! Eu quero que meu filho fale inglês, não espanhol. Já é ruim o suficiente ele se chamar Hector”. No mesmo filme, diferentes personagens destilam diferentes tipos de preconceitos, como contra porto-riquenhos, asiáticos e judeus. Nota-se, portanto, que Spike Lee não aposta em personagens unidimensionais e em discussões maniqueístas.

De volta para Destacamento Blood, é impossível não mencionar as excelentes atuações, com destaque para Delroy Lindo, especialmente na cena em que ele encara a câmera e faz um monólogo (outra marca registrada de Lee). Sua dúbia relação com o filho, David (Jonathan Majors), é bem trabalhada no filme e passa longe de esbarrar em clichês. Considerando que a produção é repleta de sequências incríveis, é difícil escolher uma cena para elogiar. No entanto, vale destacar o momento em que os Bloods descobrem, por meio da locutora Hanoi Hannah, que Martin Luther King foi assassinado. A cena é intercalada com imagens de arquivo do funeral de King e os levantes que ocorreram em várias cidades dos EUA. A vietnamita também pontua: “Negros são 11% da população estadunidense. Aqui no Vietnã, 32% dos soldados norte-americanos são negros”.

É importante mencionar que o lançamento do longa coincidiu com a eclosão das manifestações contra o racismo no mundo inteiro, motivadas especialmente pelo assassinato de George Floyd por um policial branco. Neste momento, parte da sociedade discute também quem são as figuras que mais aparecem nos livros de história como grandes heróis (já que a maioria esmagadora deles é composta por homens brancos). Fica claro, portanto, que falar de reparações históricas é mais do que necessário.

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Como de costume, Spike Lee dá em Destacament Blood a sua contribuição com maestria, apresentando um filme denso, surpreendente, que prende a atenção e, principalmente, traz outro ponto de vista para uma história que geralmente é contada pelo mesmo olhar de sempre.

Carolina Cassese

carolina cassese

estudante de Jornalismo, feminista, louca dos gatos, geminiana de sol e alma. apaixonada por mudanças e pelas palavras.

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