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Esperanças fossilizadas

[tempo de leitura: 4 minutos]

“David Attenborough e Nosso Planeta” faz uma homenagem ao importante trabalho do documentarista e um aviso urgente para a humanidade.


PPara quem cresceu assistindo documentários sobre a vida selvagem, o inglês David Attenborough emerge como referência absoluta. Semelhante a Carl Sagan e Richard Dawkins, sua influência na captação de interesses sobre as ciências da natureza por um público mais abrangente é irrefutável. Muitos poderiam sequer reconhecê-lo de rosto; basta ouvi-lo descrever a dança de cortejo dos tangarás, com sua dicção passional e rouquidão característica, para se lembrar da confortável sensação de que a natureza tem seu próprio narrador.

“Acolhimento” talvez seja a palavra que traduza o significado do naturalista na percepção de muita gente. Enquanto representantes de uma dada espécie biológica, desenvolvemos um modo de vida particular que, a cada geração, nos distanciou um pouco mais do nosso lugar de origem. Gradativamente, passamos a temer qualquer parte do mundo que não fosse “domesticada” ou “civilizada” – e agora, também: “conectada”. Essa crescente perda de tato com a biodiversidade em consonância com a urbanização e exploração de recursos naturais contribuiu para a nutrição de crenças distorcidas e insustentáveis sobre o planeta em que vivemos, muitas delas em prol de uma filosofia de mercado meteórica e inconsequente.

Invariavelmente, passamos a depender do trabalho de cientistas (e seus divulgadores) não só para desvendar os mistérios cosmológicos, como para nos orientar sobre o melhor caminho a seguir – isso se quisermos de fato chegar mais longe. Em David Attenborough e Nosso Planeta, temos acesso a um testemunho sincero, por vezes deprimente, mas carregado de propósitos, a respeito da nossa relação com o planeta. Relembrando sua trajetória desde a década de 1950, quando passou a filmar expedições de caráter educativo em diferentes partes do mundo, David Attenborough não disfarça o tom de amargura e pesar quando reflete, aos 93 anos, sobre o estado em que os biomas se encontram hoje.

Iniciando o documentário com imagens de Chernobyl, somos imediatamente relembrados do terrível desastre nuclear que assolou a cidade ucraniana em 1986. Uma tragédia de proporções continentais que, de uma só vez, forçou a evacuação de milhares de pessoas para evitar a contaminação. Durante a caminhada do nonagenário em meio aos escombros, as câmeras do trio de diretores Alastair Fothergill, Jonathan Hughes e Keith Scoley trafegam lentamente por (restos de) salas de aula, bibliotecas e quadras esportivas. A comparação de um desastre súbito como o de Chernobyl com uma extinção em massa em curso – decorrente das mudanças climáticas – ajuda a estabelecer a energia melancólica e imediatista da obra. O Homo sapiens é posicionado como vítima de suas próprias escolhas.

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Pôster do documentário

A partir dessa fúnebre introdução, Attenborough se desafia a compreender o verdadeiro significado do seu legado como comunicador da natureza. A primeira metade de David Attenborough e Nosso Planeta é estruturada em cima de anos específicos em que o naturalista reconta suas experiências e estabelece paralelos com visões de mundo predominantes em cada momento – como o otimismo do pós-guerra em 1954, ou a percepção diminuta do Planeta Terra concebida no período da corrida espacial. Cada recorte anual é anunciado na companhia de números da época indicando a população humana, as emissões de carbono e a porcentagem das formas de vida remanescentes, estabelecendo uma relação inversamente proporcional entre a última variável e as duas primeiras.

Por alguns minutos, o documentário nos leva a esperar por uma recapitulação de toda a carreira do britânico. Há uma rápida simulação em que um jovem David Attenborough passeia pelos campos de sua região natal e desperta uma paixão pela natureza ao coletar fósseis de amonitas. Em seguida, várias imagens de arquivo mostram o naturalista, um pouco mais velho, conhecendo tribos de caçadores-coletores e interagindo com diversos grupos de animais em várias partes do mundo. A indecisão sobre qual abordagem utilizar – imagens de arquivo ou simulação? – complica em certa medida a estética documental da obra. Parece até um sintoma de quem já produziu várias cenas “encomendadas” sobre a natureza em prol da manipulação narrativa.

Entretanto, o foco logo deixa de ser as produções de Attenborough; seu maior sucesso, Planet Earth (série de 2006), sequer é mencionado. O longa sabiamente direciona seu material como um manifesto político. A figura de Attenborough não é a de protagonista, mas a de mensageiro. Esse documentário não é sobre a sua vida privada e suas conquistas pessoais, tampouco um culto à personalidade, mas sobre o uso de um influenciador analógico em tempos digitais para dirigir as atenções do público diante de uma catástrofe que está por vir. Os diretores e David se concentram, principalmente, em abrir os olhos de quem não desapega do século XX.

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David Attenborough

Nesse processo de desapego, o próprio naturalista se inclui. Há muito mais preocupação do que saudosismo em seu semblante. Quando saltamos para 2020 na linha do tempo, uma enumeração de desequilíbrios ambientais desencadeia uma sensação de angústia que vai só aumentando na medida em que projeções para as décadas seguintes são apresentadas. Podemos enxergar isso como um último recurso de Attenborough que, aos 93 anos, busca se livrar de qualquer máscara de imparcialidade. Sua obra, potencialmente classificável como um artifício tranquilizante e maniqueísta do mundo natural, é convertida, com ajuda do próprio autor, numa espécie de obituário das formas de vida registradas – assim como qualquer registro de Chernobyl antes do acidente nuclear.

Apesar de alguns atritos no estabelecimento de sua tonalidade, David Attenborough e Nosso Planeta constitui um recado de extrema importância. Principalmente se considerarmos o país em que vivemos. O Brasil concentra alguns dos principais hotspots para a manutenção dos ciclos meteorológicos, mas os agentes responsáveis pela preservação das riquezas naturais estão mais preocupados com a manutenção de ideias atrasadas para proteger uma tal soberania.

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Uma tese de David Attenborough e Nosso Planeta é a de que chegamos até aqui não pelo controle imperativo da natureza, mas pela interpretação de seus padrões – que se encontram ameaçados. Como dito por Attenborough, humanos são movidos por ideias. Por meio delas, seu destino pode ser o estrato geológico mais próximo ou a garantia de meios sustentáveis que estendam um pouquinho mais o vosso legado nesse solitário e limítrofe globo azul.

Giulio Bonanno

giulio bonanno

Biólogo, educador e escritor. sempre gostou de fazer perguntas. nunca se achou bom em respondê-las.

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