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O cinismo vazio dos irmãos Russo

[tempo de leitura: 2 minutos]

“Cherry – Inocência Perdida” é um exercício de maturidade para Tom Holland criado pela direção cínica e vazia dos irmãos Russo.


OO adendo de “Inocência Perdida” dado ao título brasileiro de Cherry, filme dos irmãos Russo lançado pela Apple TV+, não poderia ser mais coerente. Protagonizado por Tom Holland, o filme soa como um exercício de reapresentação madura destas três figuras – os dois diretores e o ator – como profissionais de virtudes dramáticas sérias e densas, opostas à dinâmica que os levou ao estrelato sob a tutela da Marvel.

Contudo, Cherry – Inocência Perdida sofre na falta de controle de Joe e Anthony Russo, se perdendo na narrativa cínica que, tragicamente, assume um final conciliador das próprias estruturas que tenta questionar durante a projeção. O enredo adapta o romance homônimo e autobiográfico de Nico Walker, contando a história de Cherry (Holland), um jovem que vai perdendo a inocência após se alistar ao Exército por levar um pé na bunda da namorada, passar dois anos na Guerra do Iraque e sofrer com os traumas do retorno a vida em terreno dos EUA.

Essa descrição que soa cheia de acontecimentos dá mesmo a tônica de um filme de narrativa inchada e mal estruturada em capítulos que só servem para quebrar o ritmo. Em certo sentido, é até um filme bem pretensioso que os Russo querem fazer, tentando construir uma obra que questione as estruturas dos EUA em diversos temas (o exército, o desamparo social, a relação com os bancos, a questão das drogas, a vida suburbana de estagnação social), mas acaba resultando em um cansativo e arrastado experimento de estudo de personagem sem unidade.

É dessa falta de coesão, de uma ideia concisa para o longa, que Cherry vai se esvaziando a cada cena. No geral, soa como se a encenação adotada por Joe e Anthony quer acompanhar o estado de inebriado que o personagem Holland sente a todo momento (seja pelo não-pertencimento no exército, no retorno ao país, no uso das drogas ou na relação tóxica que desenvolve com a namorada). Contudo, os diretores se perdem nessa tentativa de deixar o mundo embaçado ao protagonista, tornam a estilização das cenas com pouca profundidade de campo e cenários desfocados, slow motions e até a mudança de razão de aspecto para determinada passagem da narrativa, como exercícios gratuitos e desconexos.

O que é mais trágico em Cherry é que o tom cínico da narrativa, dado especialmente pela narração explicativa de Holland e as irritantes quebras da quarta-parede, se torna contraditório. Para um filme que, de alguma forma, tenta questionar a estrutura cultural e social dos EUA, o desfecho conciliador de uma segunda chance que só vem após a intervenção das instituições oficiais como provedoras da ordem, é um tanto quanto hipócrita.

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O que resta, então, são 2h20 de Tom Holland em um bom exercício de atuação dramática, densa e de maturidade para o ator adicionar a seu portfólio e carreira. Uma demarcação de que o que parece ser o objetivo primordial de Cherry – Inocência Perdida, funciona mais para seu ator protagonista do que para os diretores que idealizaram o projeto.


ASSISTA
Cherry – Inocência Perdida está disponível no serviço de streaming Apple TV+.

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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