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Quando o cinema de gênero soa genérico

[tempo de leitura: 3 minutos]

“Cano Serrado” empresta elementos do Western e dos filmes de ação da década de 80 para construir uma obra genérica e vazia.


Em tempos em que o Cinema nacional dá sinais de uma consolidação de filmes de gênero, um filme como Cano Serrado soa como um desperdício de um interessante potencial para uma obra impacto. É curioso que na tentativa de construir um Neo-Western situado no Centro-Oeste brasileiro, imaginado aqui como uma terra corrupta de anti-heróis, o diretor Erik de Castro entrega uma narrativa que se aproxima mais dos filmes de ação dos anos 80. Nessa aproximação, o que mais soa gritante na diferença entre as boas películas do passado e a produção brasileira é que De Castro não consegue dar profundidade ou agregar alguma complexidade na forma como encena um roteiro fraco.

A trama conta com dois núcleos narrativos que se cruzam: a história de vingança do Sargento Sebastião (Rubens Caribé), um militar de uma pequena cidade interiorana próxima à Brasília que confunde dois policiais da capital, responsáveis por escoltar um coletivo de uma Igreja, com os suspeitos de terem assassinado seu irmão. Desta premissa, o diretor tenta construir um jogo de tensão pautado na incerteza da inocência do policial Luca (Jonathan Haagensen) que é constantemente questionada pela abordagem violenta e desumana das torturas com que o Sargento tenta arrancar a verdade, ou em certa instância, transforma-lo no culpado pela morte de seu irmão.

Na medida que a trama avança, Cano Serrado levanta diversos potenciais dramáticos e possibilidades temáticas que são muito mal exploradas pelo diretor. Assim, perde-se a interessante dinâmica de tensão que é sugerida entre as forças policiais da capital e do interior; desperdiça-se a possibilidade de evocar uma conexão entre o martírio de Luca com uma temática cristã que é gratuitamente jogada na narrativa; ao passo que também se esvazia toda construção das paisagens do cerrado do Centro-Oeste brasileiro como uma terra árida, inóspita, violenta e perigosa.

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E nesse sentido, o distanciamento do Western é consumado pela falta de arrojo que De Castro demonstra em trabalhar suas panorâmicas aéreas das planícies brasileiras, mimetizando o trabalho de Denis Villeneuve em Sicario, mas sem o sucesso do canadense; além de permitir que uma trilha sonora totalmente desconexa quebre a, mesmo que fraca, imersão na atmosfera tensa que é proposta.

Se inicialmente a ambientação proposta estabelece que o terreno árido que a dupla de policiais vai adentrando exala uma atmosfera de perigo e violência, na medida em que a trama avança e o envolvimento do núcleo de oficiais de Brasília passa a ter mais tempo de tela, torna-se clara a pretensão de construir uma dinâmica onde não existem personagens virtuosos.

O principal problema é que, nessa empreitada, De Castro não torna seus personagens complexos ou dúbios, apenas vazios. Os breves encontros entre o Sargento Sebastião e sua filha não agregam em nada a narrativa e evidenciam a necessidade que o diretor tem de verbalizar a moral, os sentimentos e visão de mundo de seus personagens, ao passo que não consegue transpor essas nuances na encenação das situações. O mesmo vale para a esposa do policial Luca, que extremamente deslocada da narrativa, fica à deriva em uma representação tosca da única personagem não pecaminosa.

Por um lado, Cano Serrado empresta a ambientação dos Westerns e a dinâmica de ação dos filmes oitentistas, mas até neste sentido falta arrojo para trabalhar a moralidade dos personagens e, em um viés maior, as questões que o cineasta buscava levantar. Desta forma, a violência ostensiva que a equipe de Sebastião tortura o policial Luca soa gratuita e fora de lugar, da mesma forma que a tensão sugerida entre capital e interior não é potencializada há nenhum nível de interesse político ou de debate regional, especialmente se considerarmos que a locação próxima a Brasília dá possibilidades para uma trama que envolva a corrupção – tanto no sentido pessoal, quanto institucional – de forma mais interessante.

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O resultado é que Cano Serrado se perde na falta de traquejo com que seu diretor não consegue articular uma série de elementos emprestados dos filmes de gêneros, em uma obra que alcançasse o potencial dramático, temático e, porque não, industrial que o cinema de gênero tem passado a ocupar no mercado audiovisual brasileiro.

 

* O filme foi assistido dentro da programação online do 7º Festival Internacional de Cinema de Brasilía (BIFF)

João Dicker

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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