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Anseios, Meios E Magias

Anseios, Meios e Magias

Quando assistimos a uma animação, não é costumeiro parar e pensar nos desafios técnicos e criativos envolvidos em sua produção. Animações proporcionam um fascínio capaz de cativar diversas faixas etárias e estender-se por muitas gerações. Uma coisa é assistir aos filmes de Charles Chaplin e não reparar nas limitações da época, outra é assistir Branca de Neve e os Sete Anões, primeiro longa animado da Disney, e não se surpreender com a persistência da obra, mesmo 80 anos após seu lançamento. Existe certa magia (não consigo pensar em palavra melhor) que nos toca profundamente quando observamos traçados e rabiscos ganharem vida. Magia que é elevada à décima potência quando nos colocamos diante de um filme de Hayao Miyazaki.

Hayao Miyazaki é co-fundador dos estúdios Ghibli. Com 76 anos, já ganhou 120 prêmios, entre eles um Oscar Award e um Oscar Honorário pelo seu impacto em animação e cinema

Cineasta nascido em Tóquio e de currículo impecável, Miyazaki representa também um dos pilares do Studio Ghibli. Responsável pela produção de alguns dos principais animes exibidos numa sala de cinema, a empresa japonesa carrega certa identidade visual, temática e narrativa digna de discussões. Boa parte dela é intrínseca ao estilo de Miyazaki, mas é construída também com a ajuda de outros grandes artistas, como Isao Takahata (diretor de Túmulo dos Vagalumes) e Joe Hisaishi (compositor das trilhas de quase todos os filmes do estúdio).

Bem… o que tem de tão especial no Studio Ghibli?

Para começar, a abordagem subjetiva da realidade, das vivências individuais, de sonhos, perdas, aprendizados e conquistas. Um ingrediente especial na receita de O Castelo no Céu, A Viagem de Chihiro, Vidas ao Vento, entre outros. Essa galera é boa em fazer a gente acreditar nesses universos e levar uma parte deles para o nosso dia a dia. Não são só as sutilezas dos traçados de Miyazaki ou da música de Hisaishi. Não se trata também de uma apreciação superficial, objetiva e tecnicista. Tem a ver com identificação. Através da animação, realizada com um cuidado impressionante, narrativas complexas e mirabolantes atravessam um sólido canal que torna a vida daqueles personagens tão tangível e importante quanto às de quem assiste.

Meu Amigo Totoro, filme de 1988, é um dos maiores expoentes do currículo de Miyazaki. Não à toa, a criatura do filme estampa a logomarca do estúdio. Animadores ocidentais visionários e renomados como Lee Unkrich e Travis Knight não escondem a apreciação pela obra com referências em seus próprios trabalhos e entrevistas. Quem não assistiu ainda tá muito cru para dizer até onde a animação pode chegar.

 

Lançado em 1988, “Meu Amigo Totoro” ganhou seis dos sete prêmios nos quais foi indicado

Basicamente, conta a história de duas menininhas que lidam com o novo lar enquanto esperam pela chegada da mãe, que está internada em um hospital. A caçula, Mei, encontra um monstro no meio da floresta e, em vez de fugir e pedir socorro, aconchega-se carinhosamente na barriga peluda e confortável de Totoro. A entidade passa a acompanhar as garotas sempre que os adultos se ausentam, oferecendo também diversão e escapismo. É como o clássico construto do amigo imaginário, materializado numa obra atemporal e universal que respeita a capacidade de compreensão de qualquer criança, seja ela dos anos 40 ou dos anos 2000.

Outro ponto presente na alma das obras do Studio Ghibli é a abordagem da natureza, menos romântica, mais bucólica, com um saudosismo mediado pela vontade de contar histórias. Narratólogos até cunharam o termo Ghibli Hills para se referir a localizações em uma narrativa com exaltação à natureza, uma singela homenagem a essa marca inconfundível da produtora. Não à toa, as locações que abrangem a sede do estúdio e o seu respectivo museu são repletas, vamos assim chamar, de Ghibli Hills.

Fotografia do museu do Studio Ghibli. Inhotim passa mal.

As heroínas-mor da natureza, junto com Totoro, poderiam ser San e Kaguya. Singulares ao seu modo, as duas princesas apresentam perfil contrastante. Uma é independente, a outra é inocente e submissa. Ambas nascidas e criadas na natureza, reflexos do mito do bom selvagem. Enquanto uma resiste ao avanço da civilização humana e se isola de seus iguais, a outra vivencia alguns dos podres que compõem nosso status quo. No meio de familiares, servos e pretendentes, Kaguya desacredita; como se descobrisse numa gaiola, impedida de voar.

A mensagem é simples, porém inspiradora. Oferece novas maneiras de lidar com o destino e com as pressões cotidianas. No desespero, retornamos ao nosso lar: nossa natureza, que por mais hostil e desigual, ainda nos fascina. O discurso dos filmes de Totoro, Princesa Mononoke e O Conto da Princesa Kaguya (e ainda de vários outros) acaba convergindo na valorização do nosso papel como apêndices florais, e não como eixo sustentador, da árvore da vida.

Pôster internacional de “O Conto da Princesa Kaguya”, indicado a categoria de Melhor Animação no Oscar 2015

Uma vez, referi-me sobre “Kaguya” como um filme que tem o poder de nos colocar de volta à posição de crianças, enquanto um velho sábio nos conta histórias. Esse velho sábio poderia ser Takahata (o diretor do filme) ou mesmo Hisaishi (compositor da trilha). A música de “Kaguya” soa incrivelmente legítima. Traduz com uma acurácia absoluta o ambiente de incertezas e descobertas, amplificados ainda mais pelo aspecto visual minimalista da obra. Já delirei perguntando-me se não seria a trilha perfeita. Lembro aqui que perfeição é uma definição artificial, não cabe à experiência naturalmente mágica de se assistir a um filme Ghibli.

 

Hayao Miyazaki tem também suas referências. Uma das principais é Chuck Jones, animador responsável pelos Looney Tunes, capaz de transformar qualquer piadinha em uma sacada visual eficiente. Esse cara, lá nos anos 40, já entendia o poder da animação tão bem quanto Walt Disney. Seus trabalhos também possuem uma identidade cativante e aproveitam com eficiência as particularidades da técnica. Coisa de criança? São adultos ali no estúdio que suam e ralam para materializar as ideias por trás do que é “coisa de criança”. Depois assista ao curta Duck Amuck e aí você volta a falar comigo.

Pergunto então: o que há de especial no meio da animação? Brad Bird, diretor de Os Incríveis, certa vez disse: “Animação não é um gênero. É um meio.” Um meio capaz de expressar qualquer gênero, inclusive terror e policial (já conferiu as obras de Satoshi Kon?). Um universo muito maior do que imaginamos, permeado por séries de TV, curtas-metragens, longas-metragens e até documentários que não devem nada àqueles protagonizados por corpos de carne-e-osso. Quem aí se lembra de Kill Bill, sabe muito bem qual é a parte que mais se destaca: uma sequência de anime desenvolvida pela Toei (empresa onde Miyazaki trabalhou nos anos 70). Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 também fez algo parecido. São muitos exemplos. São casos em que filmes live-action reconhecem sua efemeridade e buscam algum apoio na animação.

Fã-arte reunindo diversos dos personagens criados pelos estúdios Ghibli

É irônico, pois efêmeros somos todos nós. Faz parte da identidade do ser humano, já acostumado às etiquetas de convívio, celebrar os legados de vossas estadias. A arte é fruto de tal anseio. Dela, vieram as manifestações que temos hoje… literatura, pintura, fotografia, cinema. Cada um com sua magia. Cada um com seus meios. Pois arrisco dizer que, se há uma metonímia para representar a magia inerente ao meio da animação, ela atende pelo nome de Studio Ghibli.


giulio bonanno

eterno aprendiz no mundo que o cerca. fã de Cinema, Música e Artes em geral, está sempre à procura de novas apreciações. cruzeirense desde criança, nerd desde berço e mineiro desde sempre.

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