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A sensibilidade social sonorizada por Emicida

[tempo de leitura: 5 minutos]

Potência dos versos fazem do documentário “AmarElo – É Tudo pra Ontem” um registro de um show histórico e uma celebração da cultura negra.


AAproximar as pessoas em tempos de discurso de ódio e distanciamento social é um dos maiores desafios de 2020 e Emicida contribui grandemente para promover isso. O artista nos surpreende mais uma vez com o documentário AmarElo – É Tudo Pra Ontem, produzido pela Netflix em parceria com o Laboratório Fantasma, hub de entretenimento formado por alguns artistas, entre eles o próprio rapper.

A gravação do show feito no Theatro Municipal de São Paulo em novembro de 2019 é a base do material audiovisual que explora o processo de produção do último álbum de Emicida, AmarElo. Além disso, de forma sensível e profunda, resgata a história da cultura negra brasileira e pessoas importantes nesse meio para fortalecer manifestações apagadas dos livros e registros históricos.

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O especial é também a documentação de um movimento marcante, que não acaba quando os créditos sobem na tela. Pessoas negras ocupando um espaço até então distante para elas em realidade, tendo a oportunidade de pisar, muitos pela primeira vez, em um consagrado espaço cultural paulistano.

 

AMARELO: É TUDO PRA ONTEM

Um diário escrito por várias mãos e que se revela atemporal ao resistir ao momento e se fortalecer com os próximos passos; assim pode ser resumida a narrativa contada por meio de Emicida e suas companhias de trajetória durante o documentário AmarElo – É Tudo Pra Ontem.

A sensibilidade social ganha as telas e não deixa espaço para julgamentos. A união toma conta durante as 1h30 de exibição e nos envolve pela emoção, enquanto somos levados pelas vivências de quem muito foi limitado e agora precisa se expressar, isto é, a população negra.

O rapper brasileiro entra no Theatro Municipal e se apropria daquele espaço, afirmado ao longo do tempo como elitista e selecionado, para trazer os seus comuns, seu povo e a família. É um ato memorável que passa por reconhecimento, identificação e liberdade, valorizando a cultura negra como também capaz de alcançar os palcos formais e as plataformas de grande distribuição.

É também a legitimação da conquista, de superar as descrenças, admitir os obstáculos relacionados a raça mas se nutrir deles também. É sobre reconhecer as lutas dos que vieram antes, que resistiram ali na porta daquele mesmo teatro durante a ditadura para a completa visibilidade cultural e direito das pessoas negras, como é o caso da fundação do Movimento Negro Unificado (MNU), em 1978, um dos fatos lembrados ao longo da apresentação.

AmarElo – É Tudo Pra Ontem revela-se um impulso criativo que resgata personalidades negras importantes ao longo da história na sociedade, na política e, especialmente, na música e os coloca como porta-vozes e partes participantes da construção cultural e identitária brasileira.

Fato é que seja no samba, declarado pelo próprio Emicida como “o Brasil que deu certo”, nas pinturas a partir da Semana de Arte Moderna de 1922 ou no teatro experimental negro, por exemplo, toda a contribuição negra em escala nacional é evidenciada.

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Ainda, a construção do especial, produção de Evandro Fióti e direção de Fred Ouro Preto, se dá de forma coerente e liga diversos pontos e movimentos dos negros no Brasil e ao redor do mundo a situação racial que temos hoje, e até o fato de estarem ali no Theatro, muitos pela primeira, mas não última vez.

LINGUAGEM
O discurso colocado ao longo do audiovisual explica culturalmente e nos aproxima da vivência negra, para além do balanço do samba e elementos estéticos apropriados apenas.

É uma experiência sensorial e emotiva embalada pelos sons que, através da colaboração dos músicos e demais profissionais da equipe, nos convida para nos unirmos no cotidiano também e revela como os livros da história negra são os discos.

 

CONSISTÊNCIA

Emicida incorpora suas inspirações pessoais e profissionais e reúne diferentes lutas no disco, o que influencia em AmarElo – É Tudo Pra Ontem. A de maior destaque é a amizade com o baterista Wilson das Neves, materializada na faixa Quem tem um amigo (tem tudo), parceria com Zeca Pagodinho. Um laço de troca, cumplicidade e companheirismo que não acaba com a morte e reflete na canção a lembrança também da relação próxima entre Gil e Caetano.

Há também a presença de Fernanda Montenegro com alguns versos em Ismália, e Majur e Pabllo Vittar que, juntas, fortalecem e tornam os vocais da música AmarElo mais que versos, mas histórias de vida.

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Entre os convidados de Emicida (centro), Pabllo Vittar (ao fundo) e MC Tha (ponta direita)

Em paralelo, a estruturação das periferias no Brasil e de ritmos como o samba e o rap servem como cenário da própria vida do rapper, mas a proposta ultrapassa apenas o cantor e trata muito mais do encontro, até mesmo na falta dele durante a pandemia.

Como no disco do ano passado, AmarElo – É Tudo Pra Ontem é sobre esperança, otimismo e como estes se tornam mais fortes no coletivo. É um convite para o afeto, para enxergar o outro com suas habilidades, o poder da presença, mesmo onde essa não é natural, e a experimentação de uma “brasilidade” pouco vista e sentida popularmente.

Diante de tanto impacto e com a arte como fio condutor dos relatos, a arquitetura de inspirações europeias e toques refinados do Theatro Municipal tornam-se apenas detalhes e são ressignificados por punhos cerrados, na decoração e na plateia, e diversos corpos que refletem os sentimentos estimulados a cada música.

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Um dos maiores pontos fortes do registro documental é a disposição de traçar uma linha do tempo ao longo da história em que as expressões culturais negras, como o samba, o rap, o teatro e a literatura, são norteadores e nos levam ao esclarecimento da negritude.

AmarElo – É Tudo pra Ontem é uma aula de história e mais, das manifestações culturais do povo negro, muitas vezes visto apenas por suas lutas raciais, e, sobretudo, do senso de comunidade, o nós que nos trouxe até aqui. Afinal, como nos inspira um trecho da canção Principia que abre o álbum AmarElo e fecha as últimas cenas do documentário, “Tudo, tudo, tudo que nós tem é nós”.

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Mike Faria

mike faria

Conectado com a potência das narrativas e a sensibilidade social encontrou no Jornalismo o melhor lugar para se expressar, junto a prática de natação nas horas vagas e as distopias para lidar com a realidade.

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