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A Volta De Lara Croft Ao Cinema

A volta de Lara Croft ao cinema

Em uma era em que filmes baseados em histórias em quadrinhos não só dominam o mercado de blockbusters mas também tem promovido mudanças significativas na representatividade de minorias na Sétima Arte, como Mulher-Maravilha (2017) e Pantera Negra (2018), Hollywood ainda não demonstrou compreender o caminho para adaptar franquias consagradas dos games para as telas. Depois de anos com tentativas vergonhosas de dar vida a grandes jogos como a versão trash de Mortal Kombat (1995) ou a desvirtuação absurda da franquia Resident Evil (que conseguiu retorno financeiro para, infelizmente, perdurar por mais de uma década), 2016 trouxe a corajosa empreitada de Duncan Jones ao adaptar Warcraft para uma ambiciosa jornada épica nos moldes de filmes de fantasias medievais, seguida por Justin Kurzel que tentou levar para as telonas uma das franquias mais desejadas para se ver no cinema: Assassin’s Creed.

Entre diversas falhas particulares que cada uma das adaptações ao longo dos anos pode ter, todas elas sofreram com a dificuldade que a indústria cinematográfica tem em transportar elementos narrativos e visuais que funcionam nos games para o cinema e sua linguagem própria. Como se não bastasse a expectativa em torno de Tomb Raider: A Origem (2018), por promover um reboot na franquia outrora estrelada por Angelina Jolie, que conta a história de Lara Croft, talvez a personagem feminina mais emblemática e complexa da indústria dos games, o novo filme da personagem passou a ser o sopro de esperança de que a tão aguardada adaptação de jogos haveria chegado aos cinemas. Infelizmente, essa nova empreitada acaba não correspondendo a toda expectativa, tanto no que diz respeito aos parâmetros para adaptar o game, quanto na sua identidade própria enquanto filme, se assumindo como uma experiência genérica que não reflete a personalidade interessante e a complexidade de sua protagonista.

A principal falha da produção reside no roteiro irregular de Geneva Robertson-Dworet e Alastair Siddons. É verdade que a apresentação de Lara (Alicia Vikander) é interessante, mostrando a personagem em uma realidade diferente do que foi visto nos últimos jogos da franquia, levando uma vida humilde e renegando a riqueza da família Croft pela sua dificuldade em aceitar a morte de seu pai (vivido por Dominic West), desaparecido há sete anos após ter saído em uma viagem, mas a clichê relação pai-filha construída por flashbacks não sustenta a memória afetiva e importância que Richard Croft tem sobre sua filha. A estrutura de roteiro é bem básica, com um primeiro ato mais arrastado e que depende muito do carisma de Vikander para ganhar fôlego. Quando Lara decide ir atrás da ilha que seu pai procurava, o filme engata em uma aventura acelerada, divertida e com boas sequências de ação, que fazem jus a personagem destemida e badass dos games, além de um potencial a ser explorado como franquia.

É na sensação aventureira e nas sequências de ação que o diretor Roar Uthaug encontra possibilidades para criar sequências de ação envolventes, que se dividem entre as situações adversas em que Lara precisa se virar com os poucos recursos e se superar fisicamente e os embates e confrontos contra os brucutus armados da Ordem da Trindade, encabeçados por Mathias Vogel (Walton Goggins). O verdadeiro trunfo do longa é a sua protagonista, que ganha força, presença e mais complexidade do que o fraco roteiro consegue transmitir em diálogos e uma construção rasa, graças a qualidade de Alicia Vikander. A vencedora do Oscar assegura intensidade e profundidade a Lara, ao mesmo tempo que se sai muito bem nas diversas cenas que exigem de atletismo e força física. A própria maneira com que o filme explora do traços e da composição corporal da atriz demonstram uma escolha por uma Lara menos sexualizada, mas que não deixa de ser bonita e sensual. Dominic West e Walton Goggins não ajudam nem prejudicam o longa, ficando presos aos clichês de pai ausente culpado e do típico louco vilanesco, respectivamente.

Em seu terceiro ato, bloco narrativo que reserva não só o climax da ação mas também as cenas mais interessantes para concluir o arco dramático da personagem, somos surpreendidos pelo roteiro que mostra mais consistência na apresentação da inteligência e astúcia da protagonista em desvendar quebra-cabeças, interagir com as armadilhas e demonstrar os seus conhecimentos como arqueóloga. Acaba que o subtítulo dado pela tradução brasileira (“A Origem”) escancara a escolha de esse retorno ser a história de como Lara Croft se tornou a personagem forte e tão amada por varias pessoas.

Ainda que não explore das melhores características que a franquia possui nos games, Tomb Raider: A Origem é uma adaptação genérica que ganha fôlego graças ao ótimo trabalho de sua talentosa atriz, que entende a complexidade da personagem que interpreta e pelos êxitos em construir um clima aventuresco capaz de engajar o espectador. Se não é a adaptação de games que tantos esperavam, o filme demonstra que, se souber crescer junto de sua ótima protagonista, tem o potencial de se tornar uma das grandes franquias de blockbuster da atualidade.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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