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A Grande Saga Da Marvel Nas Telas

A grande saga da Marvel nas telas

Nada mais simbólico do que Vingadores: Guerra Infinita (2018) ser a culminação de toda construção de universo feito pela Marvel nos cinemas. A Casa das Ideias sempre foi conhecida por suas grandes sagas nos quadrinhos, que alongadas por meses em novas edições, reverberam em diversos arcos individuais de heróis e constroem toda a mitologia que os filmes se baseiam. Assim, desde que iniciou sua jornada nas telas de cinema com Homem de Ferro (2008), a empresa norteou seu caminho com a mesma essência que a consolidou na indústria de quadrinhos, variando entre as histórias solos e os tão aguardados crossovers. Agora, passados 10 anos e 18 longas-metragens, finalmente a maior saga cinematográfica da Marvel chegou as telas, correspondendo à expectativa de que o encontro de praticamente todos os heróis existentes no MCU não seria apenas um filme, mas sim um evento épico.

Sendo assim, o roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely escolhe por transformar Guerra Infinita efetivamente no ponto de encontro de todas as ramificações narrativas que o MCU possui, trazendo todo drama, toda bagagem emocional e psicológica que personagens e público dividem para um novo epicentro personificado na figura de Thanos (Josh Brolin). Como era esperado e vinha sendo preparado, o Titã está empenhado em sua busca pelas Joias do Infinito, os seis artefatos que condensam singularidades do universo que, uma vez juntas, asseguram um poder total sobre toda matéria e realidade existente. Como já entramos em contato com 5 das 6 Joias em filmes anteriores, o texto de Guerra Infinita não perde tempo para mostrar como o antagonista está focado em alcançar seu objetivo que, inclusive, é surpreendentemente bem construído.

Se outrora a Marvel sofreu com vilões fracos e poucos impactantes, Thanos tem não só toda imponência e sensação de ameça evidente em seu visual, mas também uma personalidade forte que evidencia sua misericórdia, suas motivações críveis, sua forma deturpada de enxergar as mazelas do universo e, porque não, todo seu carisma e senso de humor. Sua compreensão de que dizimar metade do universo para que uma outra metade tenha uma vida próspera acaba sendo empática devido ao ótimo trabalho do roteiro em dar profundidade e humanidade ao vilão. Outro ponto positivo do roteiro é a demonstração de um amadurecimento na forma como a Marvel tem abordado suas narrativas e apresentado seus conceitos. Se Pantera Negra (2018) soube utilizar perfeitamente do design de produção e da direção de arte para agregar ao enredo, apresentando valores culturais e históricos da civilização de T’Challa em figurinos, cenários e rituais, Guerra Infinita mostra que a dupla de roteiristas, assim como os irmãos Anthony e Joe Russo fazem no comando da direção, entendem que o cinema é uma arte que prioriza a imagem. Por isso, não somos bombardeados com diálogos exageradamente expositivos e didáticos, sendo introduzidos a conceitos e atualizações das situações de alguns personagens por meio da dinâmica de equipe ou pela ação. Logo na abertura da película acompanhamos Thanos e seus filhos mostrando a força que têm, estabelecendo a ameaça que injeta gás no grandioso conflito que se estenderá por todo filme, sem nenhuma exposição gratuita de informação.

Em um dos arcos, que se passa em Wakanda, na Terra, o time de heróis é composto, principalmente, por Capitão América, Viúva Negra, Pantera Negra, Bucky, General Okoye e o Hulk

Dinâmica e conflito são, inclusive, dois conceitos que permeiam a produção. A extensa lista de personagens obriga os diretores a optarem por uma divisão de núcleos narrativos, separando os heróis em pequenos grupos com missões próprias, mas que são interligadas pelo objetivo em comum: deter Thanos. Desta forma, é natural que algumas figuras acabem com menos tempo de tela e, consequentemente, menos desenvolvimento, mas o roteiro acerta na escolha de priorizar os heróis que mais tem ligações com Thanos. Nomes importantes do MCU como Viúva Negra (Scarlett Johansson), Capitão América (Chris Evans) e Pantera Negra (Chadwick Boseman), acabam apenas com funcionalidades visuais, participando de sequências de ação incríveis em seus estilos particulares de combates ou então agregando a narrativa devido aos contextos em que estão inseridos, como por exemplo, o próprio Rei de Wakanda que participa do longa muito mais pela existência e relevância de sua terra do que propriamente por uma importância na jornada como um todo. Por outro lado, Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch), Tony Stark (Robert Downey Jr.), Gamora (Zoë Saldaña), Visão (Paul Bettany) e Thor (Chris Hemsworth), possuem arcos dramáticos bem desenvolvidos, com alguns deles sendo construídos dentro do longa e outros sendo trabalhados a partir do resgate de acontecimentos vindouros na longa construção de universo que tem acontecido nos últimos 10 anos.

Dessa divisão de núcleos acaba saindo uma das maiores virtudes da Marvel no cinema: a dinâmica de personagens. Desde que compreendeu que uma das principais qualidades de seus longas reside no relacionamento entre seus heróis e no carisma dos mesmos, a empresa passou a trabalhar com as participações especiais em filmes solos. Em Guerra Infinita o acerto reside em resgatar algumas dinâmicas, como a existente entre Homem de Ferro e Homem-Aranha (Tom Holland) ou Peter Quill (Chris Pratt) e Drax (Dave Bautista) para assegurar o tradicional humor e leveza da “fórmula Marvel”; também, o resgate de outras que aprofundam o drama da projeção, como o relacionamento da Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) com o Visão. Ainda, a criação de novos encontros reservam cenas hilárias e diálogos prazerosos, ao passo que também criam tensões e arcos interessantes dentro da jornada contra Thanos, mostrando vislumbres e possibilidades de protagonismo para a próxima fase do MCU.

No espaço, há dois times. Um deles reúne parte dos Vingadores (como o Homem de Ferro) e parte dos Guardiões da Galáxia (como o Senhor das Estrelas). Na imagem ainda estão o Homem-Aranha, Drax e Mantis

Apesar de ser um dos filmes mais sérios e sóbrios do estúdio, Guerra Infinita tem um acerto de tom e dosagem entre humor e drama cirúrgico, conseguindo utilizar das diversas piadas como alívios cômicos e garantia da aura leve descontraída da Marvel, sem exaurir o peso dos acontecimentos. Mesmo que o longa seja mais carregado e tenha consequências verdadeiramente profundas para os personagens e para todo o universo criado, os realizadores não se esquecem em momento algum de se divertir e de entreter o espectador, quase que da mesma forma em que Thanos parece ter prazer em edificar sua jornada. Por outro lado, a repetição de uma piada envolvendo o arco do Hulk (Mark Ruffalo) acaba prejudicando uma interessante situação criada para adicionar mais sustância a jornada de Banner, mas que pelo desgaste do punchline acaba sendo repetitivo.

Encapando todo esse grandioso encontro de heróis está a direção espetacular dos irmãos Russo, responsáveis por garantir que Guerra Infinita se assuma como o evento épico que prometeu ser. A dupla entrega sequências de ação cativantes que variam desde combates individuais em que cada herói exerce seu poder, habilidade e característica, até confrontos em equipe que entregam momentos que aquecem o coração de qualquer fã. É animador ver os personagens unirem forças em lutas que combinam uma coreografia muito bem pensada e efeitos visuais impecáveis. É tudo muito bem filmado e as claras, demonstrando fluidez visual e domínio no comando de diferentes formas de sequências complexas, sejam elas em ambientes fechados e em escalas menores ou em confrontos que exigem de um escopo maior. O esmero visual é complementado por um design de produção e por uma direção de arte consoantes, que não só criam os mais variados tipos de cenários (desde interiores de naves à planetas com faunas próprias muito particulares), como também mostram criatividade para dar vida, texturas e cores a poderes variados, complementando as sequências de ação.

No time do Thor estão Rocket Raccoon e uma versão adolescente do Groot, trazendo para o Deus do Trovão um interessante e importante arco

O CGI também é resultado de um trabalho estupendo, capaz de transformar os Filhos de Thanos em figuras ameaçadoras e interessantes, apesar da falta de personalidade que três deles apresentam. Contudo, a criação dos 4 cavaleiros fieis do titã é eficiente a ponto de torná-los boas figuras a serem enfrentadas antes do antagonista principal. A montagem do filme, assinada por Jeffrey Ford e Matthew Schmidt, faz um trabalho imprescindível para a fluidez narrativa, que trabalha em peso a ação como fio condutor e acaba exigindo que a montagem não permita quebras de ritmo e trabalhe com cortes muito bem pensados para manter a continuidade narrativa e o sentido lógico para o espectador.

No que diz respeito as atuações, acaba sobrando pouco tempo e espaço para que o vasto elenco mostre as qualidades de trabalho, mas Hemsworth, Cumberbatch, Downey Jr., Holland, Saldana e Bautista conseguem se destacar com emoções intensas e alguns momentos marcantes dentro da trama. Mas quem realmente rouba a cena é Josh Brolin, que sustentado pelo impecável e arrebatador trabalho de captura de movimento dá vida a um Thanos imponente, carismático e bem humorado, fazendo com que o filme seja um dos mais diferentes do gênero, visto que mesmo com dezenas de heróis a disposição, entrega seu protagonismo para o vilão.

Josh Brolin dá vida a um Thanos complexo e tridimensional, apresentando o melhor vilão já construído pela Marvel Studios em seus 10 anos de vida

Ao final, o longa encontra um desfecho digno da grande saga cinemática da empresa, deixando o espectador estupefato pela corajosa escolha de como coroar os 10 anos de Marvel Studios. Uma escolha que não só condiz com a finalidade que Guerra Infinita tem dentro do MCU, ao servir como a primeira parte de Vingadores 4 (que ainda não tem título confirmado), mas também como uma demonstração de que novos tempos e inúmeras possibilidades estão por vir na Casa das Ideias. Com a confirmação de que Thanos é a maior ameaça possível, resta acreditar que a iniciativa de pessoas extraordinárias capazes de lutar as batalhas que ninguém mais consegue encontrará forças para derrotar o titã. E se eles não conseguirem proteger o universo, podemos estar certos de que eles irão vingá-lo.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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