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A Força Está Conosco

A Força está conosco

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Quando foi anunciado que a Disney havia comprado a Lucasfilm, o mundo da cultura pop veio ao chão com a possibilidade do retorno de Star Wars aos cinemas. Passados alguns anos e com a chegada de Star Wars: O Despertar da Força (2015), ficou claro que a intenção do estúdio era renovar a franquia ao apresentar novos personagens e pontos inexplorados na vasta galáxia criada por George Lucas. Contudo, mesmo que o filme tenha sido bem recebido por crítica e público, muitas críticas foram levantadas a respeito da estrutura narrativa extremamente parecida ao do primeiro filme da franquia, Star Wars: Uma Nova Esperança (1977). Ainda, o cliffhanger utilizado ao final do longa serviu para aumentar ainda mais a expectativa para que o próximo filme da franquia respondesse as perguntas que não haviam sido trabalhadas em O Despertar da Força, ao mesmo tempo que o receio (e para outros, a ansiedade) do Episódio VII ter sido tão parecido com o filme de 1977, talvez o oitavo capítulo se assemelharia à O Império Contra Ataca (1980).

Desta forma, a expectativa de que Star Wars: Os Últimos Jedi traria a expansão dos conceitos essenciais da franquia, aprofundaria e desenvolveria os arcos dos novos personagens e responderia as questões deixadas pelo seu antecessor eram enormes. Felizmente, o oitavo filme da franquia não só entrega tudo o que prometeu como surpreende com reviravoltas inteligentes, emociona com diversos momentos tocantes e empolga com algumas das melhores cenas de ação da franquia, conseguindo o equilíbrio perfeito entre a essência de Star Wars e a identidade própria do filme.

Esse equilíbrio é, justamente, um dos principais pontos do filme, tanto nos elementos técnicos quanto em suas temáticas e enredo. Na trama, acompanhamos os personagens apresentados em O Despertar da Força logo após o final do longa com Rey (Daisy Ridley) se encontrando com Luke Skywalker (Mark Hamill), Finn (John Boyega) e Poe Dameron (Oscar Isaac) acompanhando a Ressistência, encabeçada pela General Leia (Carrie Fisher), na luta contra as forças da Primeira Ordem e aos ataques de Kylo Ren (Adam Driver) e do Supremo Líder Snoke (Andy Serkis).

Não revelar detalhes do enredo da película é essencial para qualquer experiência cinematográfica, mas em Os Últimos Jedi é imprescindível que o espectador assista sem conhecimentos prévios, devido as inúmeras reviravoltas e escolhas corajosas do roteiro do longa, assinado por Rian Johnson e que também comanda a direção. O texto afiado de Johnson assegura a todos os personagens momentos de protagonismo, mas que não soam artificiais devido as constantes mudanças de núcleos narrativos e a montagem eficiente de Bob Ducsay. Também, o roteiro aprofunda os principais conceitos da franquia sem didatismo ou superficialidade, ao mesmo tempo que consegue ser denso sem ser pedante.

Os arcos de personagens são verdadeiramente dramáticos e levam os mesmos a transformações profundas e importantes para a sequência da franquia, funcionando como pontos de cisão e demarcação dentro do universo de Star Wars. Muitas delas são escolhas corajosas, principalmente as que dizem respeito a Rey e Kylo Ren, e consequentemente, ao uso e explicação da dimensão da Força, mas são também condizentes com toda a essência da franquia. As jornadas dos dois jovens, inclusive, é um dos melhores pontos do longa. Toda a construção inicial de que Rey representaria os Jedi e o lado da luz enquanto Kylo Ren seria o símbolo dos Sith e do lado sombrio, se exauri com o passar do tempo, transformando ambos os personagens em figuras confusas e conturbadas em suas próprias histórias e peculiaridades.

Dentro de todo esse êxito em expandir conceitos acaba deixando alguns personagens de lado ou explicações importantes para a conjuntura de todo o cenário de guerra e conflito. Explicações a respeito de como a Primeira Ordem se organizou após a queda do Império, a história do Supremo Líder Snoke e como se tornou uma figura tão poderosa e importante no universo, a relação do mesmo com Kylo Ren, ou qualquer vislumbre de uma personalidade bem desenvolvida para a Capitã Phasma (Gwendoline Christie), não são devidamente pontuados, deixando a sensação de que serão explicados em todos os produtos do universo expandido da franquia, como os livros, jogos e séries animadas.

Dentro de Os Últimos Jedi há um sentimento inerente de “passagem de bastão”, com Luke e Leia servindo como inspirações para Rey e Poe Dameron, enquanto Snoke acaba por ser tudo aquilo que Kylo Ren renega no lado sombrio. É um trabalho de renovação da franquia utilizando de toda a carga emocional que Star Wars carrega para milhões de pessoas, com grandes homenagens principalmente a Carrie Fisher, tornando o episódio XVIII não só o filme mais denso e complexo, mas também com o maior carga emocional até então.

Se o longa está carregado de sentimentos, os personagens são utilizados para evidenciar as mais variadas manifestações. Poe Dameron é a inconsequência em pessoa, que acaba criando problemas para a Resistência devido a sua constante necessidade de confronto. Toda sua jornada funciona como um grande aprendizado para liderar, tornando o personagem mais interessante do que em O Despertar da Força. Finn é o que ganha menos espaço para desenvolvimento, participando de uma subtrama pouco atrativa para o espectador e um pouco desconsoante com o ritmo do longa, mas que ao final fazem com que o personagem se coloque em uma posição de crescimento pessoal e entendimento da necessidade de se entregar a uma causa. Luke é o personagem com maior bagagem emocional do filme, carregando todas as conquistas e as muitas perdas e derrocadas dos anos que separam Os Últimos Jedi de O Retorno do Jedi, levando-o a situação ao qual presenciamos no longa. A performance de Mark Hammil é impecável, trazendo a tona toda a intensidade e pesar no olhar do Mestre Jedi, que mesmo após anos dominando a Força se encontra em uma situação de fragilidade.

Daisy Ridley demonstra mais uma vez que é um dos nomes com maior potencial em Hollywood, dando vida a uma Rey que perde gradativamente a inocência e pureza em seu olhar, deixando que o medo, a insegurança e a solidão tomem conta de suas expressões. É um trabalho de atuação impressionante, tornando a personagem cada vez mais forte, multifacetada e interessante. Adam Driver contrapõem a balança com uma atuação intensa e furiosa, permitindo que a cada acontecimento da trama Kylo Ren desperte e expurgue uma nova emoção, levando seu personagem a níveis de ódio assustadores, ao passo que ainda demonstra a fragilidade e insegurança do jovem. Ambos os atores demonstram que se há uma mudança de geração anunciada em Os Últimos Jedi, os protagonistas do novo momento de Star Wars estão em boas mãos.

Assim como trabalha em diversas maneiras no roteiro do longa a noção de abraçar o passado mas renovar seus conceitos, Rian Johnson comanda a direção do longa de maneira primorosa. A forma com que dita o ritmo e que enquadra seus atores prioriza as atuações e emoções de cada cena, ao mesmo tempo que é inventivo e demonstra um controle louvável da câmera para cenas de ação, entregando as sequências mais envolventes e esteticamente apuradas. Toda a beleza plástica de Os Últimos Jedi é, também, mérito de Steve Yedlin, que comanda a fotografia com um esmero estético apuradíssimo, combinando o jogo de luzes (tão presente em Star Wars) para enunciar sensações: as explosões de vermelho intenso para os momentos de raiva e fervor emocional, ou os tons de azul e cinza mais claros para paginar a desesperança que reina a galáxia.

Johnson ainda produz dois dos momentos mais apoteóticos e esteticamente incríveis da franquia, enchendo a tela de cinema com um momento que, impulsionado por todas as emoções levantadas no longa, deixam o espectador estupefato. O diretor consegue olhar para os episódios anteriores e reproduzir sensações, referenciar momentos marcantes e homenagear personagens e profissionais envolvidos, ao mesmo tempo em que traz novos conceitos, aprofunda novos personagens e adiciona um toque autoral muito particular para o longa, transformando Os Últimos Jedi no filme de Star Wars que mais possui uma personalidade própria.

Com muita coragem e inventividade, Johnson cria um filme que propõe uma análise mitológica da Força como fio da meada para decorrer o gigante universo de Star Wars e demonstrar que as sensações criadas pela franquia são baseadas em uma relação direta entre personagens e fãs. Se o diretor encerra Os Últimos Jedi com um momento tocante e emocionante para o público, é porque dentro de todo esteticismo há uma mensagem de renovação da franquia e uma gigante homenagem a tudo aquilo que ela representa. Um bonito encontro de passado e presente, prontos a abraçar o futuro. E assim como a cena final do longa evidencia, a galáxia tão tão distante criada em 1977 volta a ter um sopro de esperança graças a todos aqueles que não se deixam esquecer da existência da Força. E que ela esteja com você.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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