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A Flórida Que Foge Ao Olhar

A Flórida que foge ao olhar

Existe uma Orlando que não conhecemos. Muito além da International Drive, do Magic Kingdom ou do Island of Adventure, o diretor e co-roteirista Sean Baker, de Tangerine (2015) e Uma Estranha Amizade (2012), direciona suas lentes para fazer um fiel retrato de pessoas que vivem em situação de pobreza na cidade em que turistas do mundo todo visitam para realizarem seus sonhos. Acompanhamos este contexto através do ponto de vista de uma garota de seis anos, durante um verão na cidade de Kissimmee, Grande Orlando.

Moonee (Brooklynn Prince), vive com sua mãe, a jovem Halley (Bria Vinaite), no “Magic Castle”, um motel low-budget que acabou se transformando em moradia para muitos cidadãos. Neste ambiente marginalizado, nossa protagonista desenvolve um cotidiano incomum, constituído de atividades e brincadeiras aleatórias, como cuspir no carro de novos hóspedes/moradores, explorar os arredores, apresentar o lugar para a nova amiga ou simplesmente comemorar a passagem de um helicóptero.

A imaginação é a maior fonte de poder de uma criança. E por mais que o filme nos mostre uma situação de precariedade espantosa, há também o convite para visitar este universo por meio da imaginação infantil. Não na tentativa de amenizar um eventual problema, mas sim de mostrar quão poderosa pode ser a forma como uma criança concede significados às coisas.

Baker menciona frequentemente que sua carreira é influenciada por The Little Rascals. A série de TV norte-americana conta a história de um grupo de crianças pobres durante o período da grande depressão, focando suas narrativas na alegria da infância e não no contexto social em si.

O andamento do filme nos faz sentir como se realmente estivesse passando um verão enquanto observamos Moonee. Gradualmente, cada evento, ou sequência, nos conta um pouco mais sobre o forte espírito de liderança da garota que está sempre impetuosa em busca de diversão. Assim como aprendemos mais sobre o contraste entre carinho e desleixo de sua mãe, que apesar de não ser responsável, demonstra um amor singular pela filha.

A questão da pobreza que Projeto Flórida (2018) se propõe a levantar é desenvolvida com muita estratégia a partir da premissa cinematográfica do mostrar ao invés de contar. Aqui a direção de arte e a fotografia têm carta branca para aproveitar não só das locações reais, mas também de peculiaridades e detalhes que rodeiam tal realidade. Um plano aberto que mostra as varandas bem ocupadas do Magic Castle, por exemplo, tem como função indicar que há uma quantidade considerável de vidas coexistindo naquele ambiente.

Virtuosa, a fotografia de Alexis Zabe não é puro preciosismo, tem muitas e eficientes funções. A paleta de cores dominada pelo lilás das paredes do motel e pelo azul de tirar o fôlego do céu da Flórida está em constante sintonia com o posicionamento da câmera, quase sempre cortando os adultos pela metade e preenchendo o quadro com as crianças. A ideia realmente é contar esta história através de um filtro onírico e juvenil.

Impossível não mencionar Bobby, o gentil gerente do Magic Castle. O carismático e icônico Willem Dafoe dá vida ao personagem em uma interpretação rica em nuances, mas que caracteriza uma pessoa simples, compreensível e leal. Bobby carrega o símbolo da compaixão e de como somos tão capazes de nos afeiçoar por seres humanos abarrotados de miséria. Em entrevistas, Dafoe conta que esteve em Kissimmee algumas semanas antes de começarem a rodar o filme e aproveitou para conversar com gerentes e hóspedes de motéis locais. Algo que com certeza influiu muito em sua atuação, reconhecida e nomeada no circuito de premiações hollywoodiano.

Gosto de pensar que toda representação é, sem exceções, e por mais fiel que possa parecer, uma diminuição do que compreendemos e observamos na realidade. Por mais que a narrativa de Projeto Flórida possa parecer verídica, ela é parte de um exercício de ficção proposto pelo próprio Baker em coautoria com Chris Bergoch. Entretanto, uma das funções primordiais da ficção também é a de nos apresentar recortes tangíveis sobre o mundo em que vivemos. Nesse aspecto, a história de Moonee espanta ao mesmo tempo que cativa, pois sabemos que aqueles personagens, seus sentimentos e emoções, extrapolam à tela e estão até ali, à margem do lugar mais feliz do mundo.


rafael bonanno

com 25, é um Jornalista em formação, com o Cinema como grande paixão. seus interesses também se estendem por produção de conteúdo relevante, storytelling, experiências interativas, narrativas transmídia, Fotografia e produção audiovisual.

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