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Adaptando a obra de Elena Ferrante para as telas, Maggie Gyllenhaal faz em "A Filha Perdida" um bonito testamento sobre solidão e maternidade.

Adaptando a obra de Elena Ferrante para as telas, Maggie Gyllenhaal faz em “A Filha Perdida” um bonito testamento sobre solidão e maternidade.


E“Eu sou uma mãe desnaturada”. É assim que Leda (Olivia Colman) se define em A Filha Perdida. O filme, dirigido por Maggie Gyllenhaal, é uma adaptação do livro homônimo de Elena Ferrante e foi lançado pela Netflix.

Nossa protagonista é uma professora universitária de literatura que viaja para uma ilha grega. Enquanto tentava curtir o verão na praia, ela se depara com Nina (Dakota Johnson), uma jovem mãe, e sua filha Elena (Athena Martin). Ao ver a relação da dupla, na dinâmica de cuidado e brincadeiras, antigas memórias de Leda são despertadas.

A professora fica obcecada pelas duas e pelo restante da família, e logo percebe que Nina está em um lugar de angústia e solidão que a própria Leda já ficou antes. A partir disso, fragmentos de sua história são entrelaçados na narrativa e a dor da protagonista é colocada na tela.

 

Retrato Cru

A jovem Leda (Jessie Buckley) se vê em uma constante dicotomia. Apesar de ter bons momentos com as filhas, Bianca (Robyn Elwell) e Martha (Ellie Blake), ela também se vê tensa, frustrada e sobrecarregada. E principalmente culpada.

Enquanto o marido Joe (Jack Farthing) sai de casa para trabalhar, Leda precisa conciliar a grande demanda de cuidado e atenção das crianças com seus estudos e momentos de prazer. Até mesmo quando ele está em casa, suas vontades ficam em segundo plano e ela precisa, em todo o momento, cumprir o papel de mãe. Infelizmente, um retrato cru de várias famílias.

A Leda de Jessie Buckley

Leda se sente cansada da rotina, mas ao mesmo tempo culpada por querer outras coisas além da vivência materna que lhe foi empurrada. Em dado momento, percebe certas potências que carrega dentro de si e decide sair de casa e deixar as filhas, com então cinco e sete anos, sob os cuidados do marido. Quando lhe questionam sobre a decisão, ela diz que foi maravilhoso, ainda que a afirmação seja feita com certa culpa.

Ao longo de A Filha Perdida, personagens masculinos demonstram que delegaram a função paterna para outras pessoas, e isso é dito sem culpa. Um pai se ausentar da vida de uma criança é corriqueiro, ao passo que o mesmo ato de uma mãe é visto como monstruoso.

 

Simbolismos

Leda não odeia as filhas ou ser mãe, mas ela quer ir além desse papel e se portar como mulher, estudiosa, professora, amante e várias outras faces de si. Reconhecer isso e ir atrás de seus desejos é ao mesmo tempo libertador e sofrido. Entre os choros constantes e pedidos de atenção de Elena – principalmente após perder a boneca que sempre carregava consigo –, a protagonista percebe a dor silenciada de Nina. Ela não pode reclamar e deve sempre se portar como satisfeita, principalmente quando está perto do marido Toni (Oliver Jackson-Cohen).

Dakota Johnson como Nina

A boneca perdida é uma parte marcante da trama, pois logo é revelado que o brinquedo havia sido roubado por Leda. Difícil entender o que levaria uma adulta a pegar algo de uma criança e não devolver.

Através dos flashbacks de A Filha Perdida, vemos que a protagonista tinha uma boneca e a entrega aos cuidados da filha Bianca. Talvez em uma tentativa de estreitar os laços com a criança, ao mesmo tempo que tenta redimir toda a culpa que sente. Bianca, porém, não tem o mesmo afeto pelo brinquedo. A personagem de Jessie encontra a boneca cheia de rabiscos, sem o vestido e descabelada. Algo normal para objetos de crianças, mas devastador para a personagem

Quando pega a boneca de Elena – que estava no mesmo estado que a sua quando deixou com a filha –, Leda passa a cuidar dela. Vejo nisso uma forma de, inconscientemente, tentar fazer o mesmo pelas filhas. Como se quisesse aliviar o peso de ter ido embora.

Contudo, o simbolismo por trás de uma boneca é muito forte. Costuma ser o primeiro brinquedo dado a uma menina e reforça o papel já pré-estabelecido como mãe. Você primeiro cuida de uma boneca para depois fazer o mesmo com uma criança.

Ao roubar o brinquedo e se esforçar para que fique limpo e bem vestido, vejo em Leda a tentativa de tirar um fardo de Nina e impedir que Elena carregue com tanta força aquele objeto que reforça a tal natureza materna que a sociedade exige de todas as mulheres.

 

Críticas

Diálogos fortes da escrita de Ferrante são colocados em A Filha Perdida e mostram algumas inquietudes de Leda. No papel de filha, ela se questiona por não ser tão bonita quanto a mãe e por ter herdado somente o que tinha de negativo. Ao mesmo tempo, sente-se sugada por uma filha enquanto nota que a outra se demonstra insatisfeita com o que lhe foi dado.

A Leda de Olivia Colman

Suas percepções sobre as filhas, principalmente na adolescência e vida adulta, não são exploradas no filme. Apesar de ter gostado muito desses trechos, entendo que uma adaptação requer mudanças, adições e cortes. Não tem como colocar um livro inteiro em duas horas.

Mas a atuação de Olivia Colman é arrebatadora. Os olhares, gestos e expressões demonstram toda a angústia da personagem, sem que seja necessário dizer uma única palavra. Ao mesmo tempo que há dor, também há alegria. Em danças, risos frouxos e olhares sonhadores, dá para entender toda culpa e sensação de liberdade que Leda sente.

É muito fácil julgar a protagonista de A Filha Perdida pelos seus pensamentos e atitudes. Ela se descreve como egoísta e desnaturada. Tais características foram impostas por não ter se mantido no papel de “mãe e esposa ideal”. Mulheres que não se submetem à uma maternidade forçada e não renunciam às suas prioridades pessoais são vistas como verdadeiros monstros. Mas o convite aqui é para ter empatia. Entender que a maternidade é um tabu, as mulheres são desprezadas por não aceitar as imposições do cargo.

Eu te convido a olhar com mais carinho para a solidão materna. É preciso entender que é possível amar seus filhos e não gostar de ser mãe. E também que mães precisam de atenção, ajuda e de ter a liberdade de exercer seus papéis e vontades como mulheres.

Leda, você não é desnaturada. Você é humana.


Quem é Elena Ferrante?

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma autora italiana que decidiu manter o anonimato. Ela já afirmou que escolheu isso para ter liberdade, para não ter sua imagem inevitavelmente ligada aos livros e para que sua escrita seja a única comunicação com o mundo.

Um jornalista italiano chamado Claudio Gatti publicou, em 2016, um artigo revelando a identidade de Ferrante. No texto, Gatti a apresenta como uma alemã que trabalha como tradutora e vive na Itália. Na época, muitas pessoas criticaram o jornalista, já que a decisão veio da autora deveria ser respeitada. Outras alegaram que seria uma estratégia de marketing para dar um quê de mistério às suas obras. Eu fico no primeiro time.

Sou uma grande admiradora de Elena Ferrante. Arrisco em dizer que atualmente ela ocupa o papel de minha escritora favorita. Seria ótimo acompanhar o que ela anda fazendo, assistir entrevistas e saber mais sobre ela. Mas aí vem o questionamento: isso é mesmo necessário? Sua escrita profunda e personagens complexas e enigmáticas são o suficientes para que eu leia todos os livros sem sequer saber o rosto de quem escreveu.

Às vezes me pego pensando em quais detalhes dos livros se assemelham à pessoa por trás de Elena. Quais teriam sido suas inspirações? Alguma personagem é mais “Elena” que outra? Fico ainda mais curiosa por seu pseudônimo aparecer na criança de A Filha Perdida e na protagonista da Tetralogia Napolitana – que por um acaso também é escritora. Talvez eu tenha aguçado ainda mais sua vontade em saber a “real identidade” dela, mas vou me explicar.

Apesar de todas essas considerações, nada de fato importa. O que senti pelos livros não é menor ou maior pela ausência de um nome e rosto. Pode ser que, se eu soubesse qual a história da autora, tivesse certa admiração por ela como cidadã no mundo. Mas me contento em amar a figura literária e, principalmente, respeitar o seu desejo. Não é o cenário ideal, mas quem sou eu para julgar ou expor uma pessoa que optou pelo anonimato?

Outras adaptações para as telas
A Tetralogia Napolitana virou série da HBO Max! Até o momento foram disponibilizadas duas temporadas, referentes aos dois primeiros livros, e a terceira já foi confirmada. Ao contrário do filme A Filha Perdida, que foi gravado em inglês, a série é em napolitano – dialeto falado em Nápoles, na Itália. O programa ganhou o título do primeiro livro: L’Amica Geniale (A Amiga Genial, em português). Se você não encontrar no streaming da HBO por esse nome, tente a versão em inglês: My Brilliant Friend.

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