As famílias de fachada e seu valores vazios

As Famílias De Fachada E Seu Valores Vazios
[tempo de leitura: 3 minutos]

Mesmo que inconsistente, “A Casa” instiga o espectador a refletir a respeito do jogo de aparências vazias da sociedade contemporânea.


UUma criança bem vestida está sentada na mesa da sala, concentrada, fazendo sua tarefa de casa. Se levanta quando o pai, vestindo um terno, chega do trabalho disposto a abraçar o filho e, em seguida, beijar sua mulher, que o esperava em casa. A família prepara um jantar saudável e conversa sentados a mesa. Todos usam roupas claras e parecem estar de ótimo humor. Em seguida, o pai, satisfeito e contemplativo, olha pela janela de sua espaçosa casa.

Essa é a primeira cena de A Casa, longa dirigido pelos irmãos Alex e David Pastor, que chegou ao catálogo da Netflix em 25 de março de 2020. A produção espanhola é centrada no renomado publicitário Javier Muñoz (Javier Gutierrez) que encontra dificuldades para conseguir emprego em sua área. A cena descrita acima é retirada justamente de uma das campanhas realizada pelo protagonista no passado – ele mostra esse trecho para dois profissionais do marketing em uma entrevista de emprego. Javier não é contratado e, logo, precisa abrir mão da confortável casa onde mora, com a esposa e o filho, e se mudar para uma vizinhança mais popular.

Logo no começo do filme, Javier leva seu filho obeso para caminhar. Passado algum tempo, o garoto diz estar cansado e sem energia. O pai, no entanto, força o filho a subir um morro. Assim que chega no topo, o garoto, esgotado, vomita. A cena de A Casa é eficiente em ilustrar a maneira que o personagem principal não lida bem com limitações e acredita que, para enfrentar qualquer adversidade , “basta se esforçar mais um pouquinho”. Vale ressaltar que Javier cobra perfeição de seu filho e também de sua esposa, mas não parece se esforçar para ser um bom pai e um marido.

Após outras tentativas frustradas de conseguir emprego, o protagonista se vê inconformado e sente necessidade de retomar sua vida anterior. Ele decide, então, utilizar a chave de sua antiga casa e invadir a residência para procurar detalhes sobre os novos moradores – que, aparentemente, são o retrato da  “família Margarina”, como a do comercial exibido na primeira cena.

Essas visitas acontecem com cada vez mais frequência e, inclusive, Javier encontra uma maneira de interagir com os novos moradores (principalmente com Tomás, vivido por Mario Casas, o pai) em outro espaço. Os dois se aproximam e Javier parece estar disposto a arriscar tudo a fim de alcançar um estilo de vida perfeito. O filme vai se tornando mais tenso e violento, apesar de não ser eficiente em de fato surpreender o espectador.

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Mesmo contando com boas atuações (especialmente de Javier Gutierrez), é tarefa difícil se conectar com algum personagem da trama. O protagonista age de maneira detestável e parece ter motivações rasas para seu comportamento, ao passo que os outros personagens não são construídos com profundidade. Quase não há complexidade nas figuras femininas, que parecem mesmo ser meros acessórios, constantemente vivendo em função dos respectivos maridos. A falta de profundidade permeia muitos elementos do filme: A Casa introduz temas sérios, como a violência doméstica e a pedofilia, mas os trata com abordagens e resoluções simplistas.

O longa, porém, é eficiente em retratar diversas características e nuances da sociedade capitalista, como o apelo ao consumo, a competitividade e o individualismo. A publicidade aparece como um dos mecanismos utilizados pelo sistema para criar falsas imagens e convencer o receptor a trabalhar incansavelmente (para, assim, poder consumir mais). O personagem principal, portanto, claramente incorporou os valores que ajudava a propagar no passado – se em determinado tempo utilizava a imagem da “família Margarina” para vender um produto, agora se sente incompleto por ter uma vida que passa longe desse ideal. Também é interessante como, ao destacar a figura da casa, o filme suscita reflexão sobre a diferença entre o externo e o interno: nem sempre o que vemos de fora (a fachada, o desconhecido) condiz com a realidade (o ambiente interno, o núcleo familiar). A partir do momento que Javier invade o computador de Tomás, percebemos que os novos moradores da casa não integram de fato uma família ideal.

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Muitas discussões interessantes podem emergir a partir do longa, que apresenta uma direção cuidadosa e um bom design de produção. No entanto, fica a sensação de que a premissa poderia ter sido melhor aproveitada, especialmente se os personagens tivessem motivações mais críveis e fossem construídos com complexidade. A Casa pode não ser um filme inesquecível, mas incomoda (propositadamente) e instiga o espectador a refletir sobre como nossa sociedade constantemente descarta afetos em detrimento de ideais inalcançáveis. A disputa, afinal de contas, parece ser para definir quem finge melhor.

Carolina Cassese

carolina cassese

estudante de Jornalismo, feminista, louca dos gatos, geminiana de sol e alma. apaixonada por mudanças e pelas palavras.

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