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A Arte Que Transborda Seus Limites

A arte que transborda seus limites

  • Filmes

Depois de um 2017 em que a arte foi assaltada por diversas manifestações reacionárias a mostras artísticas e a liberdade de expressão, como a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, que chegou a ser encerrada pelo Santander Cultural, em Porto Alegre ou a tentativa de proibição judicial à peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, durante a Ocupação Transarte, em Belo Horizonte, a experiência de assistir o filme sueco The Square – A Arte da Discórdia (2017), vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2017 e que estreou em janeiro nos cinemas nacionais, torna-se uma importante por promover uma importante reflexão sobre o papel da arte e também as suas influências no comportamento social e no ambiente cultural.

Além de toda temática que envolve o debate sobre “o que é arte?” e suas ramificações, o diretor e roteirista Ruben Östlund propõe, também, um olhar sobre a hipocrisia existente nas relações sociais, afetivas e políticas no mundo atual. Assim como fez em seu excelente longa anterior, Força Maior (2014), o diretor desconstrói a erudição e altruísmo de uma elite liberal pensante que se diz (e acredita ser) aberta e disposta a ajudar o próximo, evidenciando a hipocrisia enrustida nas relações de poder e no convívio social.

Se no longa de 2014 o diretor utiliza de um casal em crise para expor suas críticas, em The Square ele escolhe o microcosmo da “alta sociedade” sueca que consome a erudita arte contemporânea, centrando o enredo na figura de Christian (Claes Bang) o curador de um museu relevante de Estocolmo. Desta forma, acompanhamos o protagonista no processo de organização de uma exposição contundente que dá nome ao filme: um quadrado luminoso instalado no chão que convida o público à adentrar suas linhas que configuram um espaço em que todas as pessoas devem se tratar e respeitar de maneira igualitária. Depois de ter seu celular e carteira furtados e adentrar em uma espalhafatosa jornada de recuperação de seus bens, Christian passa a ter suas convicções e valores altruístas testados em constantes incidentes e acontecimentos caóticos em sua vida, também motivados pelo trabalho.

Com uma essência provocativa e desconfortante, The Square passa a apresentar personagens secundários que trafegam na vida de Christian nas mais variadas situações, intercalando momentos de humor sofisticado que são marca do diretor, de risos nervosos causados principalmente pelo incômodo com as situações e silêncios inquietantes como na cena mais dramática do longa. A direção de Östlund é primorosa, ditando um ritmo lento que se beneficia ao intercalar sequências ricas de humor ácido a outras desconfortáveis e impactantes, ora pelo incomodo em sua forma mais pura ora pela contundência do que o diretor quer evidenciar como crítica.

Um dos apontamentos mais precisos e incisivos que o roteiro, assinado pelo diretor, se propõe a fazer reside na cena do jantar de gala em que a elite moderna erudita e ética se vê confrontada pela arte provocativa em essência, expurgando de suas entranhas toda barbárie e histeria social que repreende em si. Tudo isso é captado por um plano-sequência angustiante e muito bem feito, que junto da performance agressiva e visceral de Terry Notary tornam a sequência ainda mais agonizante de assistir. É quase que imediato o resgate das manifestações violentas, preconceituosas e reacionárias contra a arte que ocorreram no Brasil em 2017.

Dentro de toda essa experiência inquietante e provocadora que The Square assume ser, ainda há tempo e espaço para o diretor explorar de sua ironia tradicional como ferramenta para criticar as relações de poder existentes nas relações afetivas (como na hilária cena da camisinha com a personagem da excelente Elizabeth Moss) e a cegueira humana para as dificuldades e vulnerabilidade do próximo (nas diversas sequências que intercalam cenas nos espaços dominados pela elite e cenas de diversos moradores de ruas marginalizados).

Mesmo com diversas questões e temas sendo trabalhados em sua longa exibição (são 2h22 de projeção), o filme consegue fugir de didatismos e situações expositivas ao espectador, agregando ainda mais valor para a experiência. Méritos para a montagem de Jacob Secher Schulsinger, que dá uma sensação de desconexão narrativa aos acontecimentos caóticos da vida de Christian, deixando para o espectador a missão de preencher as lacunas que são deixadas propositalmente durante o longa.

Ter sido premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes é uma consequência irônica e auto-referente de toda a valorização do evento cinéfilo como a meca do cinema erudito. Se o museu em que Christian trabalha cultua a arte contemporânea de experiências herméticas e profundas, Cannes é um dos principais festivais que cultuam a sétima arte e funciona como polo de apreciação do suposto “cinema de verdade”.

O diretor Ruben Östlund (ao centro) reunido com o elenco do filme, durante a passagem por Cannes

Assim como a suposta definição de arte problematizada em The Square, o festival também existe em um mundo em que as noções de erudição na arte e na cultura são definidas e reforçadas pela elite – a mesma personificada e desconstruída no ciclo caótico que Christian adentra. Se essa desconstrução pode soar vazia ou pedante para alguns, pelo menos é uma tentativa de tratar de um importante diálogo a respeito da arte e seu papel na sociedade contemporânea. E se esse diálogo de fato ocorrer, que seja feito dentro das linhas igualitárias que a exposição fictícia do longa se propõe a incitar.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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