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A Volta Pop De King Kong

A volta pop de King Kong

  • Filmes

Quando nos primeiros minutos de Kong: A Ilha da Caveira (2017) nos deparamos com uma montagem de momentos importantes para a geopolítica do século XX, ocorre uma contextualização histórica do cenário que o filme se ambienta. Situado em 1973, logo quando os EUA retiram suas tropas do Vietnã, cria-se uma expectativa de cunho político mais aprofundado do que o esperado para um filme de monstros. Contudo, com o desenrolar do argumento na tela torna-se claro que o trabalho textual falha na tentativa de estabelecer qualquer nuance temática a nova adaptação do mito de King Kong.

Deste texto raso, acompanhamos o cientista Bill Randa (John Goodman) e o geólogo Houston Brooks (Corey Hawkins) conseguindo liberação para um último projeto ambicioso de sua empresa: visitar a mística ilha que dá nome a produção, guiados pela expectativa aventureira de vislumbre do desconhecido. Escoltados por uma equipe militar encabeçada pelo Coronel Preston Packard (Samuel L. Jackson), completada pelo mercenário aventureiro James Conrad (Tom Hiddleston) e pela fotografa antiguerra Mason Weaver (Brie Larson), o grupo desembarca na paradisíaca Ilha da Caveira, onde o gorila gigante Kong luta para sobreviver e proteger sua moradia das diferentes criaturas que ali habitam.

Nesta premissa, o roteiro assinado por Dan Gilroy, Max Borenstein e Derek Connolly estrutura a narrativa em uma jornada de aventura pela riqueza natural da casa de Kong. É um desenvolvimento extremamente convencional e acelerado, separado quase que em testes situacionais com diferentes seres que os grupos encontram. É no convívio dos personagens que o roteiro comete suas maiores falhas. Todos os componentes da equipe seguem arquétipos claros: Hiddlestone da vida a um herói aventureiro estilo Indiana Jones, Larson interpreta uma fotografa deslumbrada com o que vê, e que o roteiro erra ao tentar esboçar um posicionamento antiguerra, enquanto Jackson personifica o militar marcado pela violência da guerra, mais uma vez pouco aprofundado pelo trio de roteiristas. Os clichês narrativos se estendem ao pelotão de soldados, que em relações toscas e pouco orgânicas não convencem na busca pela sensação de equipe e nos cientistas amedrontados que carregam pastas e cadernetas, servindo somente para explicar as ações geológicas do primeiro ato do longa.

Toda essa pieguice narrativa, muito presente em um artifício narrativo que envolve a carta de um soldado para seu filho, só não irrita tanto porque os atores principais conseguem dar carisma a diálogos rasos e sem carga dramática. O que salva as interações dos protagonistas, principalmente na segunda metade da produção, é a boa performance de John C. Rilley. Em um papel que funciona como expositor da mitologia da Ilha da Caveira, situando melhor o ambiente e suas nuances, e como alivio cômico de um filme que parece não ter certeza quanto a seriedade que se posiciona.

Se a narrativa é convencional e composta por personagens nada facetados, coube ao diretor Jordan Vogt-Roberts dar qualidades à produção. O esmero com que apresenta a Ilha da Caveira é admirável, usando planos abertos para captar os nacos montanhosos que compõem a forma de caveira sem dar uma composição cartesiana exata, o que passa a sensação de desconhecimento da amplitude daquele ambiente. O projeto tem referências claras a cultura japonesa, com cenas que lembram momentos tradicionais de animes, planos que utilizam da câmera como uma visão de video-game de tiro (em uma perspectiva de primeira pessoa com a arma ativa na mão) e, principalmente, uma homenagem a Apocalipse Now (1979) de Francis Ford Coppola.

Entretanto, Vogt-Roberts encontra espaço para ser autoral nesse retalho de homenagens e referências que o filme assume ser, principalmente nas diferentes e inventivas formas como filma a ação. Todo o período que engloba a chegada a ilha, a tentativa de mapeamento do solo e o primeiro encontro com Kong, são deslumbrantes do ponto de vista estético e inventivos, no que diz respeito a maneira com que filma. A composição de cena com planos fechados em vários personagens, ajudada pela montagem que varia as visões de um mesmo acontecimento, garantem uma variedade de perspectivas interessantes para encarar o primata gigante, enquanto a voz marcante de Samuel L. Jackson conduz o confronto. Outro ponto a se destacar na direção é inteligente exploração de close ups nos olhares de vários personagens, principalmente do gorila gigante e do Coronel vivido por Jackson, conseguindo criar uma dramaticidade que o roteiro não sustenta. Há, ainda, uma menção superficial a um debate sobre a violência e a natureza agressiva e bélica do ser humano, mas ficando novamente sem nenhum aprofundamento efetivo, cabendo ao diretor explorar da brutalidade dos homens para compor minimamente essa temática.

Obviamente, o que mais empolga em Kong: A Ilha da Caveira é a presença do primata. Em sua maior versão de todas as adaptações para o cinema,  a computação gráfica funciona muito bem, alinhada a uma inteligente, efetiva e constante composição de cenas para dar a escala correta do comprimento de Kong, ora perante a pequenez dos humanos, outrora comparado as outras imensas criaturas presentes em seu habitat natural. Ao final, após a cena pós-créditos com vislumbres de um universo cinematográfico coeso das adaptações de monstros, o que fica é a sensação de que apesar de divertir e encher a tela com cenas plasticamente rebuscadas, a nova adaptação do mito de King Kong podia mais.

joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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