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60 Anos De Um Dos Maiores Filmes De Todos Os Tempos

60 anos de um dos maiores filmes de todos os tempos

Logo quando estreou em 1958, o 46º longa-metragem de Alfred Hitchcock, Um Corpo que Cai, mostrou que seria um filme polêmico.O longa teve alguns contratempos na produção, como a escalação de Kim Novak, substituindo as duas escolhas preferidas do diretor para fazer o par romântico com James Stewart, sendo elas Grace Kelly, que já havia aposentado, e Vera Milles, que não pode pegar o papel devido a uma gravidez. Uma vez nos cinemas, o longa arrecadou uma bilheteria abaixo do esperado e obteve um mix de críticas positivas e negativas que acabaram taxando o filme como uma produção genérica de Hitchcock.

Contudo, com o passar do tempo, a crítica especializada e o público passaram a enxergar o filme com novos olhares, deixando que as nuances e as habilidades técnicas e linguísticas que o gênio Hitchcock explorou alavancasse o longa a um novo patamar. Assim, ao completar 60 anos de seu lançamento, Um Corpo que Cai não só figura entre a chamada tríade de melhores obras do cineasta ao lado de Janela Indiscreta (1954) e Psicose (1960), como também aparece regularmente nas listas de melhores filmes da história do cinema, já tendo sido eleito pela respeitada revista Sight&Sound, em 2012, o maior filme de todos os tempos.

A comparação com os considerados outros dois maiores títulos de Hitchcock, Um Corpo Que Cai é mais singular dentro da filmografia do cineasta por possuir uma sensação de intimismo, quase que uma pessoalidade na forma com que o diretor trata as características que marcam seus projetos e sua identidade como realizador. Ainda, o longa demonstra ainda mais a genialidade de Hitchcock que, em seu 46º longa e já com 58 anos de idade, trouxe inovações técnicas e novas abordagens narrativas para entregar um filme assustador, perturbador e que reafirma o porque ele é considerado o mestre do suspense.

De cara, já entendemos que o longa será uma experiência sensorial. Os créditos inicias criados pelo designer gráfico Saul Bass recriam a sensação incômoda de vertigem em um jogo magistral de sobreposição de imagens e elipses que confundem o olhar humano para já iniciarmos o longa com uma sensação de desconforto. Daí, passamos a acompanhar o policial Scottie Ferguson (Stewart), que durante uma perseguição acaba causando a morte de um colega devido a sua inédita descoberta de medo de altura. Passado algum tempo, Scottie é procurado por um conhecido interessado em contrata-lo como detetive para investigar a sua esposa, Madeleine Elster (Novak), a qual o marido acredita estar possuída por um espírito feminino e que por isso estaria cometendo adultério. Apesar de um pouco relutante quanto a credibilidade da história contada pelo amigo, Scottie decide pegar o caso e acaba adentrando em interminável espiral de insanidade, que Hitchcock explora com maestria para enlouquecer e angustiar o espectador junto de seu protagonista.

Essa espiral de insanidade crescente é construída a partir de um jogo de manipulação de sensações, por meio das subversões narrativas e das diversas nuances que os personagens e situações as quais estão cometidos acabam revelando durante a projeção. É uma nova versão do cineasta, que insere o espectador na cabeça de Scottie ao introduzir tons de espiritualidade e crença no primeiro ato do longa, mas que exaure todo o suposto misticismo da narrativa para construir uma trama com traços de filme policial, filmes de fantasma e suspense psicológico, que explora de sentimentos palpáveis, sendo a paixão o principal deles, para criar, refletir e aprofundar as obsessões de seu protagonista.

A atuação de James Stewart, que já havia trabalhado outras vezes com o diretor, contribui para a criação de um protagonista dúbio e que, assim como o espectador faz, passa a se questionar e a carregar uma carga dramática de culpa e perda muito profunda, transformando Scottie em um dos personagens mais trágicos do diretor. Por outro lado, Kim Novak adiciona mais camadas a todo jogo de subversão e percepção de Um Corpo Que Cai, entregando uma atuação que varia de um caráter vulnerável e quase que inexpressivo para uma presença forte, sensual e inquietante. A atriz tem muito mérito em conseguir criar com profundidade e realismo as diferenças necessárias para um dos principais pontos da trama.

Mais do que um trabalho magistral na condução rítmica e narrativa, Hitchcock utiliza de seu olhar detalhista e de sua veia estética para adicionar uma beleza plástica cativante, que também ajuda a prender a atenção na tela. Nada do que o diretor coloca em cena é gratuito, com cenários, figurinos e um jogo de cores que condiz com o estado psicológico de cada personagem em determinadas passagens do longa. Ainda, a criação do contra zoom, técnica que combina o movimento da câmera para frente com um zoom para trás, explorando impressão de deformação e alongamento do espaço, para transmitir a sensação incomoda provocada pela vertigem é genial. Não é atoa que a invenção passou a fazer parte da linguagem cinematográfica, sendo reproduzida diversas vezes ao longo dos anos.

Passados 60 anos de seu lançamento, Um Corpo que Cai se assume cada vez mais não só como uma das obras primas do cineasta, mas como um dos mais atemporais e marcantes filmes da história do cinema, sendo um amalgama de gêneros da sétima arte que revela suas camadas e nuances com o desenvolvimento do jogo de subversão intrigante que é a experiência sensorial criada por Hitchcock.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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