Basquiat em retrospectiva

Basquiat Em Retrospectiva

Depois de uma temporada em Brasília, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de Belo Horizonte apresenta a exposição Jean-Michel Basquiat – Obras da coleção Mugrabi, que ficará em cartaz até o dia 24 de agosto. A mostra conta com mais de 80 obras do artista nova-iorquino e apresenta também uma retrospectiva de toda sua trajetória. O conjunto de peças, avaliadas em pelo menos US$ 1 bilhão, exposto pertence ao israelense Jose Mugrabi, um dos principais colecionadores de arte do mundo. Na coletiva de imprensa que aconteceu no último dia 13, o holandês Piete Tjabbes, curador da exposição, falou um pouco sobre o artista e a montagem das obras.

Basquiat, conhecido por ter levado diversos elementos da arte de rua para as galerias, é um representante do neoexpressionismo. Quando era adolescente, grafitava os muros de Nova York e assinava como SAMO  (que significava same old shit). Esse personagem surgiu quando o artista fazia um trabalho de escola e resolveu escrever sobre SAMO, um vendedor de religiões. No entanto, como explica Tjabbes, Basquiat não se reconhecia como grafiteiro, já que pintou os muros de Manhattan por apenas um ano. A Nova York da época era o lugar ideal para os artistas que se expressavam de forma inovadora. “Todos que não eram do balé clássico ou do violino iam pra lá”, afirmou o curador.

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Suas obras apresentam características marcantes. Uma delas é o fato de que o processo de construção está sempre aparente nas telas. Basquiat frequentemente escrevia algumas palavras e depois as riscava, pois acreditava que as pessoas se empenham muito mais para ler algo que está rasurado. Outro proposta do pintor era sempre liberar “a falta de foco”. Os quadros apresentam múltiplos elementos, que nem sempre dialogam entre si. Por esse motivo, o curador da exposição acredita que os jovens conseguem se identificar bastante com Basquiat. “Sabemos que, em um mundo com bombardeio de informações, é difícil se concentrar e pensar em uma coisa só. Basquiat trabalhava com o raciocínio associativo. Ao ler em voz alta as palavras que estão escritas em qualquer um dos seus quadros, é possível  ouvir o artista pensar”, afirmou.

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Parte da exposição, a peça foi pintada em 1982 e vendida em 2017 por 110 milhões de dólares, tornando-se a peça artística americana mais cara da história

É importante ressaltar também o cunho ativista de suas obras. Basquiat tinha consciência de que era um dos únicos negros no meio artístico. Fazia questão, portanto, de homenagear outras pessoas negras de destaque. “Ele vivia em um ambiente controverso. Muitas vezes, ao sair de um evento de gala, onde era super prestigiado, não conseguia pegar um táxi na rua porque era negro”, contou Tjabbes. Suas obras trazem, portanto, reflexão sobre o racismo presente na sociedade estadunidense e em todo o meio artístico. Em 1985, expressou o desejo de ser cineasta justamente para quebrar estereótipos preconceituosos na TV e no Cinema. “Quero fazer filmes em que negros são retratados como pessoas da raça humana, e não como alienígenas. Tampouco todos vão ter imagem negativa, de ladrões e traficantes de drogas”, disse.

Uma das frase mais icônicas e representativas de Basquiat era: “Acredite ou não, eu sei desenhar. Mas quase sempre luto contra isso”. O pintor, portanto, não tinha a pretensão de alcançar os princípios da chamada “arte erudita”. Era um artista significativamente versátil, influenciado pelos desenhos animados que assistiu na infância, pelo que via na televisão e também pela curiosa interpretação que tinha das histórias bíblicas.

A parceria com Andy Warhol, figura maior do movimento pop art, é um dos destaques da exposição. Pierre Tjabbes conta que a crítica não recebeu bem os trabalhos da dupla, o que afetou significativamente Basquiat, acostumado a ser prestigiado. No entanto, os dois conservaram um forte laço de amizade. Com a morte de Warhol, em 1987, o pintor se viu desolado. Um ano depois, com apenas 27 anos, Jean-Michel Basquiat faleceu de overdose. Após o ocorrido, os preços de suas obras não pararam de subir.

 

Mostra

Sobre questões mais técnicas da exposição, o curador revela alguns truques. Um deles é iluminar com mais intensidade os quadros que merecem maior destaque, como o Flash em Napoles, de 1983. Ele afirma também que as telas contam com um sensor, que ressoa quando qualquer pessoa se aproxima demais. “Temos que fazer isso porque muitas pessoas, especialmente aquelas que têm o discurso ‘até o meu filho de 6 anos faz melhor que isso’, realmente se sentem no direito de tocar na obra, sem nenhum tipo de cuidado”.

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Basquiat, em 1987, no seu estúdio, em Nova Iorque

A mostra, que é a maior exposição de Basquiat em países latinos, está no CCBB de quarta a segunda e conta com entrada franca.


carolina cassese

estudante de Jornalismo, feminista, louca dos gatos, geminiana de sol e alma. apaixonada por mudanças e pelas palavras.

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