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90º Oscar: A Edição Mais Especial Da Cerimônia

90º Oscar: A edição mais especial da cerimônia

Há dois anos atrás, a cerimônia do Oscar entrou para a história. Não porque houve alguma gafe de proporções similares da que viria a acontecer no ano seguinte (coitados da senhora Bonnie e do senhor Clyde), mas sim pela evidente inércia evolutiva da Academia. Em 2016, ano em que fomos agraciados com a bela performance de Idris Elba em Beasts Of No Nation, todos os indicados das principais categorias de atuação foram, sem exceção, brancos. Straight Outta Compton foi lançado naquele ano e, ainda assim, o filme passou batido e foi indicado à Melhor Roteiro Original – que me pareceu mais um prêmio amargo de consolação. Nenhuma diretora indicada. Nenhum diretor negro. O Iñarritú segurava ali a barra de ser estrangeiro, mas não é como se os outros privilégios que o foram concedidos não fossem suficientes para deixá-lo bem confortável. A 88ª edição do Oscar foi marcada pela hashtag #OscarSoWhite – astros como George Clooney e o grande cineasta Spike Lee trouxeram essa discussão à tona, deram declarações fortes e contundentes sobre a ausência de indicados negros e, num movimento curioso, a Academia colocou Chris Rock para comandar a noite (ainda bem, porque ele não deixou ninguém esquecer o que estava acontecendo ali).

Greta Gerwig concorre ao Oscar de Melhor Direção por seu trabalho em “Lady Bird – A Hora de Voar”, sendo a quinta mulher a ser indicada à categoria

Acho que cabe dizer aqui que as esperanças de consumir um cinema industrial mais diverso e representativo foram severamente podadas na manhã em que eu acordei e vi nas notícias que o Trump havia sido eleito presidente dos Estados Unidos. Imagino que qualquer um que tenha alguma proximidade com qualquer manifestação artística tenha sentido basicamente a mesma coisa que eu. Em 89 anos de cerimônia, somente uma mulher ganhou Oscar de Melhor Direção. Se aos trancos e barrancos só uma figura feminina foi premiada em uma das mais importantes categorias da noite, eu não conseguia acreditar que estaria próximo o dia em que esse feito se repetisse ou que, de fato, minorias começassem a ocupar algum lugar na indústria. Bom, ao que parece, eu estava – felizmente – errada.

No ano seguinte ao #OscarSoWhite, muitos aproveitaram a oportunidade de terem um microfone diante da audiência de diversos países do mundo para dar voz à questões como racismo, xenofobia e sexismo dentro da indústria cinematográfica. Gael Garcia não mediu palavras para criticar a política de imigração implantada pelo novo presidente americano. Janelle Monaé, que naquele ano interpretou Mary Jackson no longa Estrelas Além do Tempo, fez um discurso lindo e necessário sobre como as mulheres negras são ofuscadas da história – o filme estrelado pela atriz e cantora é exatamente inspirado em Katherine Johnson, primeira mulher negra promovida à chefe de departamento da NASA e de fundamental importância nos grandes feitos espaciais da organização. Não posso me esquecer de citar o gesto do Asghar Farhadi, que não compareceu à cerimônia como protesto às novas políticas de imigração de Trump. O diretor foi premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e comunicou por uma carta que sua ausência foi em respeito aos estrangeiros que foram desrespeitados pela lei que dificulta ou proíbe a entrada de imigrantes nos EUA.

A cerimônia de 2017 se encerrou com a incrível confusão da troca de envelopes do vencedor de Melhor Filme, mas a produtora de Moonlight, Adele Romanski, tratou de não deixar a gafe ofuscar a importância de um filme com temática LGBT de protagonistas negros ganhar o prêmio mais cobiçado da noite: “Dedico esse prêmio às meninas e aos meninos negros que se sentem marginalizados. Que este filme possa inspirá-los a alcançarem seus sonhos”. É muito bonito ver como a arte vai muito além da beleza ou do primor técnico; é também resistência, é manifestação política e outdoor para mudanças.

A atriz Alyssa Milano é a responsável por dar início ao “#metoo” (“eu também”, em tradução literal), uma hashtag encorajando as pessoas a compartilharem suas histórias de abuso sexual

O Oscar 2017 foi o começo de um ano que viria a ser um grande plot twist para a indústria. Casos de abuso não são novidade nos bastidores dos filmes. Sabemos que os cabelos da Shelley Duval caíram de tanto estresse no set de O Iluminado, sabemos da cena de estupro em O Último Tango em Paris, sabemos dos muitos casos que envolvem o nome do Woody Allen mas, no ano passado, muita poeira empurrada para debaixo do tapete foi descoberta. As coisas começaram a ser de fato expostas após o surgimento das denúncias (sim, no plural) contra o poderoso produtor norte-americano Harvey Weinstein. Atrizes, modelos e funcionárias que passaram pela The Weinstein Company superaram o medo de terem suas carreiras arruinadas e trouxeram à tona diversos episódios de abuso sexual que sofreram, todos cometidos pelo perturbado Harvey. O produtor foi demitido de sua própria empresa, expulso do Sindicato de Produtores, da Academia e da BAFTA. O que veio depois desse episódio foi só o carimbo que faltava para confirmar e provar pra todo mundo que há um problema institucionalizado de comportamento abusivo de homens no cinema.

Kevin Spacey foi um nome de peso que também pegou carona no trem para a ruína. O ator Anthony Rapp, da série Star Trek: Discovery, denunciou o astro de House of Cards por abuso sexual. Rapp, na época, tinha apenas 14 anos. Spacey não demorou para se manifestar diante da alegação e disse que não se recordava do episódio, e ainda achou que seria uma boa ideia aproveitar a ocasião para tornar pública a informação de que é gay. Kevin Spacey foi afastado de House Of Cards, que teve sua produção suspensa até segunda ordem, além de ter perdido o papel no filme Todo o Dinheiro do Mundo, que concorre a algumas categorias no Oscar desse ano. O filme já estava montado, pronto e o ator sairia na corrida pela indicação a Melhor Ator Coadjuvante mas, após a polêmica, o diretor Ridley Scott ordenou que todas as cenas com Spacey fossem retiradas do filme e regravadas com outro ator (Christopher Plummer, que curiosamente foi indicado à Melhor Ator Coadjuvante pelo papel). O Dustin Hoffman rodou. Ed Westwick também. E Brett Ratner. E James Toback. Eu teria prazer de engrandecer a lista de nomes de abusadores em Hollywood, mas vamos fazer um esforço e tentar focar no lado bom de tudo isso.

O “Time’s Up” é um movimento com o objetivo de erradicar os casos de abuso sexual (principalmente) em Hollywood, mostrando que ninguém mais vai ficar calado sobre os assédios e “o tempo acabou” para todos os abusadores. Inúmeras atrizes fazem parte do grupo, como Meryl Streep, Emma Watson, Shonda Rhimes, Kerry Washington, Alyssa Milano, America Ferrera, Reese Whiterspoon, Lena Waithe e Tracee Ellis Ross

Esse tipo de coisa é importante pra gente repensar até que ponto vale a pena passar por cima do ser-humano-autor em nome da perpetuação de sua obra. Eu, particularmente, encaro cinema como uma expressão artística e, portanto, não consigo consumir o filme à parte de quem o fez. Cinema é subjetivo, é visão de mundo, é experiência pessoal. Homens como Harvey Weinstein são responsáveis por criarem um imaginário em que esse tipo de comportamento é aceitável “em nome de algo maior”. Eu falo dos anti-heróis que mascaram a podridão da personalidade com lapsos de genialidade ou lealdade. O Michael Corleone. O Dr. House. O Walter White. O Travis Bickle. Esses personagens condicionam nossos pensamentos a um caminho perigoso que separa muito tranquilamente a personalidade conturbada dos feitos realizados, e quanto mais esse gesto acontece, mais espaço é aberto para abusos morais, psicológicos e sexuais velados pelo poder e prestígio desses homens perante a indústria e o público. Tá, mas isso a gente conversa com mais detalhes em outro momento. Vamos falar de Oscar.

Os últimos dois anos deixaram o cenário do cinema meio bagunçado e incerto mas a onda que vem trazendo os efeitos dessas mudanças nos festivais começou sutil, lá em Cannes, quando Sofia Coppola quebrou um jejum de 56 anos e foi a segunda mulher a ganhar o prêmio de Melhor Direção no festival (a primeira foi a cineasta soviética Yuliya Solntseva, em 1961). Greta Gerwig zerou o Rotten Tomatoes. Corra!, um filme sobre racismo, foi um sucesso de bilheteria e entrou para o brilhante time de filmes de terror que têm rolado nos últimos tempos. Essas coisas fizeram uma faísca se iluminar e foi assim que a esperança de ver um panorama mais diverso e democrático no cinema voltou a existir.

Em 90 anos, Rachel Morrison é a primeira mulher a ser indicada na categoria “Melhor Fotografia”

A nonagésima edição da cerimônia acontece dia 4 de março e essa é, possivelmente, a lista de indicados ao Oscar que mais me deixou feliz até hoje. Não só pela qualidade das produções ali mencionadas (sério, quem já conseguiu escolher um filme preferido?) mas pelo significado que existe por trás de grandes favoritos à estatueta. Bom, primeiro vamos ao fato de que demorou NOVENTA ANOS para uma mulher ser indicada à Melhor Fotografia. A primeira figura feminina a constar na categoria é Rachel Morrison, fotógrafa de Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi. Gosto de contar a história de um moço com quem eu conversei uma vez que me disse que “diretor de fotografia” é profissão de homem porque os equipamentos são pesados. Qual será a desculpa esfarrapada que ele deve usar hoje em dia, na época das DSLR? Além do mais, reduzir o papel do fotógrafo à segurar equipamentos é um sinal de que você não está entendendo absolutamente nada sobre como funciona a feitura de um filme. Volte 5 casas.

Não me recordo de outra vez em que a categoria de Melhor Direção esteve tão diversa: Greta Gerwig é mulher, Guillermo Del Toro é mexicano (chora, muro!) e Jordan Peele é negro (o único a ser indicado a Melhor Produtor, Melhor Roteirista e Melhor Diretor no mesmo ano). O James Franco, outro nome envolvido em denúncias de abuso sexual, tomou um drible da Academia e foi ignorado pela sua atuação em O Artista do Desastre, o mínimo a ser feito depois de terem glorificado Casey Affleck mesmo após ele ter sido exposto e denunciado por abuso sexual, no ano passado. Além disso, Me Chame Pelo Seu Nome arrancou suspiros e elogios de críticos e recebeu três indicações nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator e Melhor Filme, sendo o segundo ano consecutivo em que temos uma produção de temática LGBTQI+ em grande destaque. Essa é a edição em que temos a pessoa mais velha da história a concorrer à uma estatueta: a grande, talentosa, sensível e inspiradora Agnès Varda, com 89 anos, foi indicada na categoria Melhor Documentário com Visages, Villages. Bom, mas e aí? Qual o grande ponto de tudo isso?

O Oscar 2018 também traz outros recordes. Meryl Streep é a pessoa com o maior número de indicações ao prêmio, já tendo sido nomeada 21 vezes. Enquanto isso, Octavia Spencer é a atriz negra que mais concorreu ao Oscar, se igualando a Viola Davis (três indicações), além de ser a primeira atriz negra a receber duas nomeações consecutivas após a sua vitória (Histórias Cruzadas, em 2011)

Sem querer subjugar as outras manifestações artísticas, mas considero o cinema uma união sinérgica que mistura literatura, música, artes plásticas, teatro e arquitetura nas proporções perfeitas. Nesse sentido, acho que a sétima arte é uma espécie de universo paralelo em que se pode replicar a vida com alguma proximidade da realidade. Assim, através do fenômeno da identificação, fica fácil perceber como filmes têm o tremendo potencial de se tornarem referências para nosso comportamento, de transformar um pensamento, de promover mudanças e de levantar bandeiras sociais e políticas muito necessárias.

Quando um abusador recebe em mãos o prêmio mais cobiçado por qualquer ator no mundo, mais vítimas certamente estarão passíveis de serem atacadas. Não indicar o James Franco é muito necessário, embora eu também consiga concordar que a atuação dele é ótima. Desmontar um filme totalmente pronto para não dar espaço a um homem acusado de molestar uma criança de 14 anos é muito necessário. É radical mesmo, eu também acho, mas enquanto medidas como essas não são tomadas, não há transformações significativas. Indicar filmes realizados por mulheres é muito necessário, porque a gente sonha em estar lá também. Nós não só temos o desejo, como também temos a sensibilidade e a capacidade de emplacar filmes inesquecíveis na indústria do cinema.

Kathryn Bigelow é a primeira ganhadora do Oscar de “Melhor Direção”, em 2010, por “Guerra ao Terror”

Cada vez que aparece uma imagem da Kathryn Bigelow segurando um Oscar, as mulheres acreditam na possibilidade de serem enormes e respeitadas. Quando se lê o nome da Greta Gerwig, também. Quando a maldição de 90 anos sem uma mulher fotógrafa sendo indicada ao Oscar se quebra, a gente começa a acreditar (só começa) que nosso trabalho não vai ser diminuído, questionado ou menosprezado pelo simples e básico fato de sermos mulheres. Quando Moonlight, um filme sobre homossexuais marginalizados e negros vence o prêmio mais importante da noite, sobe ao palco toda uma legião de pessoas que encontrou no filme uma brecha pra dizer que eles existem, e que as histórias deles não são menos importantes, bonitas ou especiais que as nossas. Quando inteiramos o segundo ano consecutivo em que um dos grandes nomeados da noite é um filme LGBTQI+, todas essas pessoas representadas pelas letras da sigla se sentem vistas e respeitadas. A representatividade é importante não só pelo gesto de se ver ali na tela de alguma forma, mas é também um instrumento de mudança social. Assistir minorias, pouco a pouco, chegando em lugares de prestígio em indústrias elitistas e masculinas como a do cinema é muito inspirador. E, no fim das contas, é o que nos move em direção a uma lógica de produção de filmes mais democrática, diversa e mais humana.

Desejo de verdade que os próximos anos da premiação sejam animadores e bonitos como esse está sendo. Porque, afinal, qual a graça da arte se ela não for plural? Se eu gostasse de ver mais do mesmo, eu assistiria filmes do Woody Allen. 🙂


raquel almeida

sempre atenta aos pequenos detalhes de todas as coisas. mineira, 23 anos, formada em Comunicação e fã de Cinema pop.

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