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Crítica: “Jurassic World: Reino Ameaçado”

Crítica: “Jurassic World: Reino Ameaçado”

Em 1993, o primeiro Jurassic Park, dirigido por Steven Spielberg, chegou aos cinemas revisitando o conceito de blockbuster que já havia se estabelecido em Hollywood, por quase vinte anos, com Tubarão (1975), também do diretor. Grata reinvenção para a indústria, o filme trazia uma história que focava bastante em seus personagens sem perder o ritmo de suspense e mistério quando a trama se centralizava nas criaturas pré-históricas. Essa dinâmica, aliada aos efeitos visuais de ponta, foi responsável por capturar a magia do cinema em sua forma mais pura e essencial. O resultado não poderia ter sido diferente: sucesso absoluto de bilheteria, clamor da crítica especializada e um produto que moldou toda uma geração.

Duas décadas depois e a franquia continua encontrando alguma vida após o êxito comercial do reboot Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros, em 2015. Juan Antonio Bayona (Sete Minutos Depois da Meia-Noite), cineasta espanhol que ganhou notoriedade por sua habilidade em tratar de temas sombrios de formar subjetiva e sutil, ficou responsável por dirigir Jurassic World: Reino Ameaçado, que tem roteiro dos colaboradores de longa data Colin Trevorrow e Derek Connolly (ambos co-escreveram o primeiro Jurassic World).

Algum tempo após o fatídico incidente que culminou com o fim do parque temático Jurassic World, o congresso norte-americano discute a respeito da preservação de espécimes pré-históricos, recriados com recursos de intervenção genética, uma vez que a ilha que abrigava o parque seria devastada por um vulcão prestes a entrar em atividade. Claire Dearing (Bryce Dallas Howard), antiga gerente de operações no Jurassic World, agora à frente de uma ONG pró salvamento dos espécimes, é convocada para uma operação de resgate em conjunto com o pesquisador behaviorista Owen Grady (Chris Pratt).

O longa abre de maneira aterrorizante, indicando que o tom do filme seria mais sombrio do que seu antecessor. No primeiro ato, há um momento para contextualização e desenvolvimento do problema a ser explorado em que a participação do Dr. Ian Malcolm (Jeff Goldblum), restabelecendo o ponto de vista anteriormente trabalhado no primeiro filme da série, não é gratuita. A ideia de que a vida não pode ser contida e de que ela encontra suas maneiras está implícita durante toda a narrativa. É importante observar que enquanto os vilões apresentam motivações unilaterais – e talvez aí falte inventividade para a franquia – a natureza desempenha seu papel.

“Reino Ameaçado” traz consigo um filme mais aterrorizante da nova franquia. Na foto, Chris Pratt (Owen) e Bryca Dallas Howard (Claire)

Neste capítulo, Bayona se aproveita das muitas peculiaridades dos dinossauros para causar sensações, como espanto, humor e compaixão. Os seres pré-históricos são criaturas que conhecemos, majoritariamente por meio dos livros de história e museus, portanto nosso imaginário trabalha de uma maneira que cria percepções variadas e obscuras a respeito deles.

No passado, Spielberg fez excelente uso desses aspectos para trabalhar nossa empatia por tais criaturas através das interações com os personagens. Em Reino Ameaçado, apesar da história demandar um andamento frenético, Bayona valoriza quando pode emular ou despertar sensações semelhantes. O grande mérito de sua direção é o de buscar inventividade e novidade quando as criaturas estão em cena.

Em meio ao tributo e respeito prestados à franquia, observamos Owen e Claire serem desenvolvidos à medida que conhecemos novos personagens. Chris Pratt entrega uma sólida performance, dessa vez adicionando traços bem característicos de sua atuação, resgatados de quando surgiu como um dos personagens mais engraçados da série televisiva Parks and Recreation. Eventualmente, descobrimos mais sobre a antiga pesquisa de Owen, um estudo sobre o comportamento dos velociraptors, e sobre a forte relação com a Blue.

A história de Owen com a velociraptor Blue ganha um arco no novo filme

Na companhia da paleontóloga Zia Rodriguez (Daniella Pineda) e do analista de sistemas Franklin Webb (Justice Smith) à frente do Grupo de Proteção de Dinossauro, Claire, dessa vez mais madura e determinada, é convocada por Benjamin Lockwood (James Cromwell). O senhor, que revela ser um dos cientistas responsáveis (ao lado de John Hammond) pela clonagem dos espécimes pré-históricos, deseja transportar os animais ameaçados para uma ilha-santuário-livre-de-turistas após repensar questões éticas e ecológicas de sua pesquisa. Bryce Dallas Howard consegue transformar a personagem de Claire de maneira orgânica, sem que as alterações na sua personalidade pareçam forçadas ou fora de lugar.

É sempre uma grande expectativa saber que Michael Giacchino assina a trilha sonora original de um longa. Em Reino Ameaçado, o compositor não só retrabalha os temas clássicos de John Williams (assim como o fez em Jurassic World), como também dá sua própria interpretação para os momentos mais impactantes confeccionados por Bayona. Poucos compositores em atividade sabem evocar sentimentos de forma tão precisa e memorável.

Com a conclusão de mais um capítulo, é difícil vislumbrar o futuro da franquia dos dinossauros. Acredito que o esforço de conceber uma obra mais sentimental e que flerta com subgêneros de terror, é uma forma de estabelecer novas frentes. Por outro lado, sinto que há, novamente, um desinteresse em investir nos personagens principais que, conceitualmente, são bons, mas que quando a narrativa se aproxima do clímax acabam ficando em segundo plano.

Dinossauros, dinossauros e mais dinossauros

Em relação ao seu antecessor, Jurassic World: Reino Ameaçado emula empatia, terror e curiosidade com mais eficiência enquanto explora o próprio universo no intuito de encontrar novas abordagens. Entretanto, a retomada de temas e momentos nostálgicos para o público não é abandonada e, como têm acontecido de forma sistêmicas nas grandes produções hollywoodianas, acabam sendo mais apelativas (o tal do fan-service) do que elementos narrativos bem incorporados à trama. A visão de Bayona, porém, demonstra potenciais que podem ser explorados no sentido de permitir que a franquia enxergue novos ares.

rafael bonanno

com 25, é um Jornalista em formação, com o Cinema como grande paixão. seus interesses também se estendem por produção de conteúdo relevante, storytelling, experiências interativas, narrativas transmídia, Fotografia e produção audiovisual.

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