Na Prateleira de Cima | Joe & Joe

Na Prateleira De Cima | Joe & Joe

Em um grupo que incluía Truman Capote, John Hersey e Hannah Arendt, Joseph Mitchell foi provavelmente o maior escritor de não-ficção na história da New Yorker – ou, pelo menos, o mais lembrado por seu trabalho na revista. Mitchell nasceu no sul do país, mas praticamente toda a sua carreira profissional se passou na Grande Maçã, com um dom incomparável para ouvir sonhadores e bêbados.

No inverno de 1932, enquanto tomava café em um restaurante grego, o repórter encontrou Joseph Ferdinand Gould pela primeira vez. Naquele dia viu um homem baixinho, magro, procurando por comida em um dos piores momentos da Grande Depressão. Porém, Mitchell viria a descobrir que Gould era uma lenda viva em Greenwich Village – um vagabundo, um falador, um escritor e alguns acreditavam ser um gênio. Ele estava constantemente trabalhando em um livro épico chamado Uma História Oral do Nosso Tempo e parecia fazer um paralelo à carreira de Mitchell: ambos buscavam incessantemente a captura de conversas de pessoas aparentemente comuns, interpretando-as, dando-lhes forma e, principalmente, permanência.

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Joseph Mitchell

Em 1942, o repórter sugeriu escrever o perfil de Gould para a New Yorker. E assim o fez. Mitchell tornou-se o mais dedicado dos ouvintes de um, por vezes bêbado e inconveniente, boêmio. Estava claro que o assunto favorito de Gould era ele mesmo e as outras pessoas eram meros pequenos atores no filme de sua mente e a agitada cidade em que ele vivia não passava de um pano de fundo, ainda assim, ele o ouvia. Depois que o perfil apareceu, o escritor ficou ainda mais emaranhado nos assuntos de Gould: sua luta pelos centavos do dia, a acomodação da noite e as falhas tentativas de publicação da História Oral. Pouca coisa mudou desde que narrador e personagem se conheceram e quando Gould morreu, em 1957, nem uma única página da obra foi encontrada. Vinte e dois anos após a primeira publicação, Mitchell embarcou em uma segunda parte do perfil, revelando não apenas o seu papel nos negócios de Gould, mas também as conexões pouco poéticas que tinham sido deixadas de fora no artigo de 1942 e que, em sua ausência, levaram a uma outra ideia de quem era Joe Gould.

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Joe Gould, em 1943

Durante três décadas, Gould, formado em Harvard e pertencente a uma ilustre família da Nova Inglaterra, passara seus dias e noites perambulando pelos bares e tavernas de Greenwich Village, permanecendo em hotéis baratos e albergues, vivendo da generosidade de amigos e estranhos. Dez anos após a publicação que o deixou repentinamente famosos, Joe teve um colapso na rua e acabou como um barbudo e fragilizado paciente psiquiátrico do Pilgrim State Hospital, onde morreu com 68 anos de idade.

O primeiro texto, Professor Gaivota, descreve um trabalho monumental que Gould estava escrevendo, Uma História Oral de Nosso Tempo, contendo trechos e trechos de conversas que Gould teria ouvido e seus ensaios comentando tais diálogos. No seu último relato, a história teria excedido nove milhões de palavras, rabiscadas em caligrafia legível apenas para ele em inúmeros livros de composição do tipo que as crianças usam na escola. Como não tinha casa, Gould deixou os capítulos em estúdios e casas de amigos enquanto completava sua obra, carregando o trabalho em andamento em um portfólio imundo embaixo do braço.

Porém, era tudo uma mentira.

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Em 2000, Stanley Tucci e Ian Holm deram vida cinematográfica à Joe Mitchell e Joe Gould, respectivamente, em “Crônicas de Uma Certa Nova York”

A História Oral nunca existiu, pelo menos não fisicamente. Embora Mitchell tenha percebido a verdade após a publicação do primeiro perfil, a lenda da grande obra sobreviveu ao próprio Gould. A história real foi revelada pelo escritor no artigo O Segredo de Joe Gould, que foi publicado em duas partes na New Yorker, em 19 e 26 de setembro de 1964. É considerado a obra-prima de Mitchell. No novo perfil – mais tarde reimpresso como um livro e depois incluído em Up in the Old Hotel, uma antologia de 1993 de seu trabalho – ele relata sua relação com Gould e como ele havia percebido que a História Oral não existia.

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Mitchell descreve o momento que percebe a farsa depois de apresentar Gould a várias editoras que haviam manifestado interesse em publicar trechos do trabalho, já que Joe alegara ter sido rejeitado por 14 publicadores e que havia escondido o manuscrito por precaução durante a guerra. O repórter confrontou Gould e ele apenas respondeu: “Não é uma questão de preguiça“, sem realmente confirmar se seu livro existia no papel ou não.

A partir desse ponto, a história continua por anos sem um fechamento até que Mitchell revela o segredo de Joe Gould. Os vinte e dois anos que separam os dois textos podem ser explicados pelo próprio autor, quando este se depara com uma pintura de Gould.

“De repente percebi que, em minha cabeça, eu havia substituído o verdadeiro Joe Gould – ou pelo menos o Joe Gould que conheci – por um Joe Gould depurado, um Joe Gould póstumo. Esquecendo o desonroso ou transformando pouco a pouco o desonroso em honroso, como se tende a fazer quando se pensa nos mortos, eu o tinha respeitabilizado, por assim dizer. Agora, olhando para o rosto desavergonhado do retrato, eu lhe devolvi suas proporções e concluí que, se pudesse opinar sobre o assunto, de um modo ou de outro, o verdadeiro Joe Gould não ficaria nem um pouco aborrecido se eu contasse qualquer coisa que tivesse descoberto a seu respeito. Muito pelo contrário.”

No final das contas, O Segredo de Joe Gould é um retrato de um homem solitário, narcisista e mentiroso, cuja a história que dizia escrever era o que o mantinha vivo. “Desde aquela manhã fatídica, a História Oral tem sido minha corda e minha forca, minha cama e minha comida, minha esposa e minha pita, minha ferida e o sal em cima dela, meu uísque e minha aspirina, minha rocha e minha salvação. É a única coisa que tem algum valor para mim. O resto é lixo.” Sendo ela real ou não, Mitchell sentiu que não era seu dever, naquela época, expor a verdade e correr o risco de destruir um homem. Este foi um de seus últimos trabalhos publicados, embora ele tenha continuado a ir ao seu escritório no New Yorker por 32 anos, até sua morte em 1996. Joe Gould, ao que parece, pode ter sido parte da razão e inesquecível relato de Mitchell sobre os altos e baixos de Gould acabou sendo, de certa forma, um autorretrato.

vitória c. rocho

estudante de Jornalismo na Universidade de Santa Cruz do Sul. aos 21 anos trabalha em uma biblioteca e dedica seu tempo livre a coluna sobre Filmes e Séries em um jornal local, além de escolher o próximo destino de viagem.

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