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Na Mise-en-scène / “A celebração negra em Black is King”

[tempo de leitura: 5 minutos]

Tudo que Beyoncé representa e tudo que ela tem para dizer transcende as formas de manifestação artística. Precisaria mesmo de mais do que a música, mais do que a performance. Lemonade, o primeiro álbum visual da artista, foi uma empreitada absolutamente bem sucedida e ficamos todos com gostinho de “quero mais”. A verdade é que a espera valeu a pena – Black is King é um grande acontecimento audiovisual do ano, um prato cheio de conteúdo, qualidade, história, referências, luta e celebração.

Para analisar a estética de Black is King honrando tudo aquilo que o álbum visual representa e carrega, estou imensamente feliz em dizer que divido hoje a criação deste texto com uma mulher que admiro muito em todos os aspectos possíveis e que pode falar com propriedade sobre toda a potência e impacto da obra. Natália Amaro é uma amiga querida, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (PPGCOM-UFMG) e produtora cultural – e é ela que conta pra gente um pouco da história por trás das referências que tanto engrandecem Black is King, além de fazer uma reflexão sobre como o filme empodera pessoas negras. Farei observações técnicas a medida em que somos guiados por essa aula de referência à cultura africana.

 

Com vocês, Natália! <3.

O álbum visual é uma continuação à trilha sonora assinada por Beyoncé Knowles-Carter da versão mais recente de Rei Leão (2019) – mais uma produção Disney, que não contribuiu por muito tempo para a incorporação de personagens ou produtores de filmes negros. Em 2020, Black is King conta a história de Simba com elenco exclusivamente negro e pelas vozes de Nala (Knowles-Carter) e artistas de Gana, Nigéria, Mali, Quênia, Camarões, África do Sul, Reino Unido, Canadá e Estados Unidos. A direção é dividida entre a cantora e profissionais, em sua maioria negros, também de diferentes regiões do mundo.

A ideia do co-diretor Kwasi Fordjour, em entrevista à Forbes, era apresentar Rei Leão e sua trilha sonora visual de forma que o homem negro, participante da cultura hoje, se identificasse. Há um retorno simbólico e prático da negritude, apresentando África e América juntos, em diferentes tempos, lugares, corpos e melodias. Os movimentos simbólicos são feitos por metáforas (ou talvez mais complexas figuras de linguagem) e de maneira literal, como a inserção da bandeira pan-africana dos EUA na metade do filme.

“Que negro seja sinônimo de glória” é o convite feito por Beyoncé no começo do álbum e este é cumprido. Através das imagens e composições, a negritude é apresentada em uma proposta de resgate ao que foi perdido durante o processo de colonização do “novo-mundo” e das nações que já existiam na África. Há a menção respeitosa à espiritualidade e aos orixás, em um gesto que foge do esotérico ou místico. A recuperação das grandes nações, além das múltiplas referências à Rainha Nefertiti, que é feita pela memória à realeza.

A partir do estabelecimento da escravidão, os africanos que foram traficados perderam qualquer identidade ao chegarem nas Américas. As diferentes regiões africanas eram nações já estabelecidas e obedeciam a sistemas próprios de monarquia. Reis e rainhas foram roubados pelos europeus e obrigados a enriquecer – de graça, sob cárcere e violência – outros reis, completamente desconhecidos por eles até então. Em 1994, o rei perdido era um leão animado. Em Black is King, o rei é um menino negro.

Oi, é a Raquel: acho interessante pensar aqui como as locações tem um papel mais do que fundamental no storytelling. Seja pelos campos que obviamente remetem a biomas africanos, até a igreja absolutamente impactante que recebe o videoclipe de “My Power”. Beyoncé trabalhou novamente com Hannah Beachler, designer de produção de quem sou muito fã e que colaborou com a artista em Lemonade, além de já ter sido premiada com um Oscar por seu trabalho em Pantera Negra. Em entrevista, Beachler conta que a igreja, que é totalmente branca, foi como uma tela de pintura pronta para receber a intervenção da riqueza cultural do povo negro, trazendo a alegria e a beleza das referências. Após o trabalho impecável e cuidadoso da equipe de arte, o local parece menos solene, com iluminação mais forte e uma grande forma de flor no chão que, segundo Beachler, se assemelha ao símbolo adinkra da África Ocidental Bese Saka, significando riqueza, abundância e unidade. Beyoncé e dançarinas se posicionam como Nala e seu bando de leoas, em figurinos vermelho-vibrante que cria um contraste absurdamente lindo com o espaço neutro. Elas dançam descalças, performando uma coreografia que exala graça, força e beleza.

Uma das formas modernas de reparar o racismo é o enriquecimento financeiro da população negra dentro e fora da África, a maioria nos índices de pobreza e genocídio. Jay-Z, em Mood 4 Eva, representa a revolução de ser um preto rico quando diz que é Mansa Musa reencarnado: imperador do Mali no século 14 e homem mais rico da história do planeta Terra, com riqueza incapaz de ser mensurada. Musa Keita participou de uma comitiva pela África até a Arábia Saudita e doou tanto ouro à cidade de Cairo, que provocou uma crise inflacionária local. O governo do Império Mali por Mansa Musa (Rei Musa) durou 25 anos e construiu mesquitas, escolas, bibliotecas e museus que persistiram.

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Os Carter: Beyoncé e Jay-Z

Oi, é a Raqueltudo em Mood 4 Eva é realmente muito empoderador – tecnicamente, a mise en scene é toda pensada para valorizar, centralizar e engrandecer os protagonistas em cena – tanto a disposição dos objetos, quanto a escolha dos ângulos. A paleta de cores é majoritariamente composta por tons quentes e fortes, principalmente o amarelo – que acentua o senso de prosperidade e riqueza pretendido. Nessa faixa, aparece outro detalhe que permeia todo o filme e que carrega uma simbologia super interessante – crianças vestidas com o mesmo figurino de Beyoncé e Jay-Z. Acho que isso conversa muito com o que Natália tem falado sobre pretos ocupando lugares sociais de prestígio e poder, com a intenção de quebrar essa ideia de que crianças negras necessariamente crescem em contextos de pobreza e marginalidade e mostrando que é possível crescer com boas oportunidades, conforto e luxo.

Black is King é elegante. Até a maldade e a tentação representadas por Scar, interpretado pelo excepcional Warren Masemola, ganham roupagem brilhante (literalmente) e refinada.

Oi, é a Raquel: eu acho que a questão da elegância do filme é um ponto muito importante. Em uma conversa antes de escrevermos esse texto, Natália me disse “pode ser bonito, leve, ser negro fora da lógica do racismo, ser preto por ser preto” e acho que esse comentário é muito preciso pra falar de Black is King. Esteticamente, é um filme absolutamente ousado. As referências não são visualmente óbvias, clichês, naquele processo semiótico automático. É um visual arrojado, complexo, que nasce de uma arte que não abre mão de celebrar suas raízes. A lógica de cores acontece em um equilíbrio perfeito entre o neutro e a mistura de cores vibrantes, o que reforça ainda mais a ideia da inserção da cultura africana em um contexto elegante. Os figurinos, por fim, são a cereja do bolo – uma celebração da alta costura feita pelo povo negro, com referências do povo negro para vestir corpos negros com elegância, arte, identidade e personalidade.

Pessoas negras são, antes de tudo, pessoas. Somos multidimensionais: temos emoções diversas, relacionamentos afetivos, amigos, famílias e muitos ou poucos dilemas. Ver uma mulher negra rica, coberta de ouro, líder de um projeto musical é revolucionário. Só é possível imaginar aquilo que é visto: é preciso imaginar e mostrar mulheres e homens negros em situações alheias à violência.

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Reproduzir gerações juntas vivas ao mesmo tempo, rompe com o projeto evidente de desmantelar famílias negras todos os dias.  São imaginários que permitem a associação da negritude ao futuro, ao prestígio, ao brilho, ao centro: donos de mansões, artistas, mulheres bem sucedidas, reis, rainhas, amáveis e amorosos, integrantes de famílias, rodeado de amigos, com sorrisos no rosto. Se há críticas, são, agora, desnecessárias.

Raquel Almeida

raquel almeida

sempre atenta aos pequenos detalhes de todas as coisas. mineira, 24 anos, formada em Comunicação e fã de Cinema pop.

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