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Curtas em Foco / “Recife Frio” (2009)

[tempo de leitura: 2 minutos]

Misteriosamente um meteorito cai sobre uma praia em Recife e o clima da cidade muda abruptamente. O que antes era tropical passa a ter temperaturas tão baixas que até pinguins começam a fazer parte da fauna local. Essa premissa é o que norteia Recife Frio (2009), curta-metragem de Kleber Mendonça Filho que entrega uma crítica atemporal e potente.

O curta – o brasileiro mais premiado desde Ilha das Flores (1989) – tem uma trama que se desenvolve por meio da simulação de uma longa reportagem e as cenas são apresentadas por meio dos “fragmentos jornalísticos” em que a população local relata sua nova rotina diante do extraordinário. Mercadorias regionais desaparecem e figuras culturais recebem outro papel, os bonecos artesanais que costumavam representar a quentura do sertão são confeccionados usando luvas, calças e cachecóis.

Dentre todas as situações encontradas no “falso-documentário”, a mais icônica e caricata é de uma família de classe média alta que vive em uma cobertura. Por conta das baixas temperaturas, a ordem de convívio dentro da residência é completamente invertida. O cubículo quarto da empregada, sem janelas e super abafado é disputado pelo filho dos donos do apartamento que acaba por dominar o lugar e a empregada é obrigada a morar na fria e ventilada suíte com vista para o mar.

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Pôster

Um senhor vestido de Papai Noel é quem se vê beneficiado pelo clima mais ameno. Por usar os trajes característicos do personagem, o calor era um empecilho nas suas longas jornadas de trabalho. Os turistas lamentam e retornam para suas cidades enquanto para o restante da população, o shopping center vira local de aglomeração, um verdadeiro refúgio.

Se eu me deparasse com essa premissa anos atrás, com certeza encararia como uma produção distópica de ficção científica. Só no final do ano passado, um vazamento de petróleo atingiu várias praias no nordeste, e os habitantes locais sem outra alternativa começaram a retirar o óleo com suas próprias mãos. A cidade de São Paulo amanheceu cinza por conta da fumaça vinda de queimadas na região da Amazônia.

Nesse exato momento o pantanal está em chamas e o bioma está em risco, 25 mil hectares foram destruídos pelo fogo. Além de outras coisas, esse curta é um alerta, quem sabe não é só uma questão de tempo para que o Recife realmente se torne frio. Em apenas 24 minutos, as contradições sociais de classe, raça e gênero e também as relações pessoais que dão vida à distopia são afetadas diretamente e agravadas pela catástrofe.

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Há 10 anos, Kleber Mendonça Filho já imobilizava seu curta na atemporalidade, a negligência institucional do Brasil em relação à crise climática que só aumenta. Quem sabe o que o país viverá até os próximos 10 anos. Seja lá o que for, se continuarmos nesse caminho, o Recife Frio vai ser o menor dos nossos problemas.

rayanne candido

estudante de Jornalismo, paulistana, capricorniana e filha das águas doces. amante de roteiros audiovisuais, filmes, séries e documentários.

seu tempo livre é baseado em café, algum episódio de The Office e leituras distópicas.

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