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"Meu Amigo Nietzsche" trata da relação de uma criança com a literatura para fazer um importante apelo ao sistema educacional brasileiro.

Imagine o que aconteceria se a maior vontade de um menino analfabeto fosse compreender uma das obras filosóficas mais influentes de todos os tempos, e ainda se, o autor fosse Friedrich Nietzsche. É assim que Meu Amigo Nietzsche, curta-metragem de Fáuston da Silva, abre espaço para o improvável ao cruzar o caminho de Lucas (André Araújo Bezerra) com o livro “Assim falou Zaratustra“.

Em processo de alfabetização, o protagonista tem seu aprendizado prejudicado pela sua dificuldade de leitura. Para não reprovar de ano, sua professora recomenda que leia o máximo que conseguir independente do lugar e é exatamente o que ele faz. Ela só não imaginava que Lucas iria encontrar um exemplar da clássica obra de Nietzsche enquanto brincava com os amigos no lixão.

A primeira dificuldade é apresentada de forma cômica: a pronúncia do nome Nietzsche. Ao perguntar para sua família o significado daquela palavra gigantesca na capa do livro, a resposta é simples, o livro está em inglês. Mas, o garoto fica em dúvida pois tem certeza de que as páginas estão em “brasileiro” e resolve sair por aí questionando as pessoas até que escute uma explicação que o agrade.

O interesse de Lucas pelo livro aumenta a cada palavra nova que descobre e isso faz com que domine novos conceitos, desenvolva pensamentos filosóficos e comece a falar “difícil”. Porém, ao invés de colher admiração, o menino assusta as pessoas em seu convívio e as leva a acreditar que há algo de errado com ele.  A mãe acredita que o comportamento estranho é “obra do demônio” e que a igreja é a salvação, já a professora acha seu potencial de liderança prejudicial aos novos alunos e parafraseia o filósofo alemão para se referir ao jovem: “ele não é mais um garoto, é uma dinamite”.

Com duração de 15 minutos e recursos limitados, Meu Amigo Nietzsche se passa na periferia de Brasília e consegue ser crítico as principais instituições formadoras da sociedade brasileira: a família, a escola e a igreja. E ainda, pela família do protagonista ser migrante do nordeste, alude a situação de muitas pessoas que deixam sua cidade natal na esperança de que a vida melhore. É impossível não refletir sobre a desigualdade social na perspectiva educacional e o poder transformador dos livros.

A produção acumulou muitos prêmios da sétima arte no país e no exterior, entre eles o prêmio Youssef Chahin de melhor curta-metragem no Festival Internacional do Cairo. A fluência narrativa, as críticas essenciais e a bem estruturada trama de maturação – gênero que envolve amadurecimento dos personagens – têm mérito nesse reconhecimento.

Apesar do tema ser utilizado na ficção de Faustón, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Educação (Pnad), divulgada no dia 15 de julho de 2020, a taxa de analfabetismo no Brasil caiu de 6,8%, em 2018, para 6,6%, em 2019. Ainda que a diferença representa cerca de 200 mil pessoas, o país tem ainda 11 milhões de analfabetos.

Para além de simples eventualidades, Meu Amigo Nietzsche é um apelo ao defasado sistema educacional brasileiro. A esperança é que encontros considerados improváveis, como o do menino Lucas com o filósofo Friedrich Nietzsche seja uma das muitas opções e não apenas um sortudo acaso. “Vontade – eis o nome do libertador e mensageiro da alegria: assim vos ensinei eu, meus amigos”. Se crianças cheias de vontade que têm realidades vivem semelhante a de Lucas recebessem oportunidades melhores, talvez sentissem essa alegria que assim falou zaratustra.


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Meu Amigo Nietzsche está disponível para assistir no Youtube.

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