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Ampulheta / “Um Corpo Que Cai” (1958)

[tempo de leitura: 3 minutos]

Dizer que Um Corpo que Cai é um filme a frente de seu tempo não seria injustiça alguma. A fraca recepção entre a crítica nos Estados Unidos e a bilheteria baixa para uma obra de Alfred Hitchcock, que já havia conquistado um certo prestígio, são indicadores de que as inovações técnicas e o esmero do diretor para trabalhar a linguagem neste filme superavam a capacidade de processamento do público à época. O fato é que Um Corpo Que Cai foi ressignificado e revisto com o passar do tempo, sendo apontado com justiça como um dos melhores filmes de Hitchcock e um dos maiores da história do Cinema.

O longa é também uma investida experimental de Hitchcock, que usa de novas abordagens com a linguagem para perturbar o espectador e levá-lo a um transe sensorial pautado no impacto imagético. Logo na abertura, somos apresentados a essa proposta de inquietação sensorial. Os créditos inicias criados pelo designer gráfico Saul Bass recriam a sensação incômoda de vertigem em um jogo magistral de sobreposição de imagens e elipses que confundem o olhar humano e levam ao desconforto.

Daí em diante, acompanhamos o policial Scottie Ferguson (James Stewart), que durante uma perseguição acaba causando a morte de um colega devido a sua inédita descoberta de medo de altura. Passado algum tempo, Scottie é contratado como detetive para investigar Madeleine Elster (Kim Novak), esposa de um amigo que acredita que sua amada está possuída por um espírito feminino que a tem levado a manter uma relação adúltera. Ao pegar o caso, Scottie adentra numa interminável espiral de insanidade que o faz confrontar sentimentos afetivos íntimos, seus desejos e projeções que os alimentam.

Há um jogo de manipulação por meio das subversões narrativas e das diversas nuances que os personagens e situações apresentadas revelam durante a projeção. É interessante como Hitchcock opta por uma constante mudança de caminhos, tanto em prol de um suspense causado pelo desarme do espectador atento à trama, quanto na abordagem experimental da linguagem em busca de uma provocação sensorial – sem, em momento algum, de abdicar do seu formalismo com a encenação.

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A articulação entre uma narrativa de investigação e mistério junto de um estímulo visual e sonoro provocante insere o espectador na cabeça de Scottie. Assim, cria-se um jogo de possibilidades interpretativas quanto aos sentimentos envoltos à projeção: a obsessão, a paixão, o delírio e o medo.

A atuação de James Stewart, que já havia trabalhado outras vezes com o diretor, contribui para a criação de um protagonista dúbio que, assim como o espectador, passa a se questionar. Scottie é o personagem mais trágico de Hitchcock e, ao longo da narrativa, ele nutre um sentimento de culpa profundo que traz uma melancolia latente à sua jornada. Por outro lado, Kim Novak adiciona mais peso a todo jogo de subversão e percepção de Um Corpo Que Cai, em uma atuação que varia entre uma inexpressiva vulnerabilidade e uma presença forte, sensual e inquietante. A atriz tem muito mérito em conseguir criar com profundidade e realismo as diferenças necessárias para um dos principais pontos da trama.

Desta forma, ele trabalha os cenários e figurinos fazendo parte do jogo de cores que traduz o transe psicológico de cada personagem em determinadas passagens do longa; ao mesmo tempo, a trilha sonora de Bernard Herrmann corrobora para que sequências cruciais da trama tenham os sentimentos de obsessão, paixão, fascínio e desespero, uma forte relação catártica com o espectador. E, novamente, Hitchcock se sustenta na posição de orquestrador de uma jornada de ilusão, surpreendendo com o enredo na mesma medida que impacta visualmente.

Ao falar da veia experimental, é necessário apontar a genial criação do contra zoom, técnica que combina o movimento da câmera para frente com um zoom para trás (ou o contrário), dando a impressão de deformação e alongamento do espaço que, aqui, é utilizada para tornar cinematográfico o incômodo provocado pela vertigem. Tal inovação, por mais interessante que seja, é “apenas mais uma” das investidas experimentas e técnicas que o gênio Alfred Hitchcock propôs em seus anos de carreira.

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Sobretudo, Um Corpo que Cai tem uma certa intimidade com seu realizador, que brilhante como foi é também sempre lembrado por seu comportamento difícil. Temos um filme de forte traço autoral, de uma encenação que – por meio da linguagem cinematográfica – busca um impacto visual e psicológico carregado dos sentimentos que mais parecem interessar à Hitchcock na sua própria relação com o cinema: a paixão e a obsessão como dois lados de uma moeda.

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Um Corpo Que Cai está disponível no TELECINEPlay
João Dicker

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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