Ampulheta / “Rastros de Ódio”

Ampulheta / “Rastros De Ódio”
[tempo de leitura: 5 minutos]

Em algum momento da vida, quando li o livro The Searchers: The Making of an American Legend, de Glenn Frankel, me deparei com uma colocação precisa a respeito do longa: Rastros de Ódio talvez seja o maior filme de Hollywood que poucas pessoas viram”. De fato, a obra de John Ford lançada em 1956 é cultuada por cinéfilos, mas não é dos filmes mais conhecidos por um público amplo. Acima de tudo, Rastros de Ódio é uma das obras primas de um dos maiores diretores do “cinema clássico hollywoodiano”, que aborda o western em sua ambiguidade – não só nas convenções de gênero, mas também em seu impacto como símbolo cultural dos EUA.

De cara, é necessário falar sobre o deslumbre estético de Rastros de Ódio. O diretor utiliza da câmera Technicolor e da tecnologia VistaVision para capturar com uma beleza plástica impressionante a paisagem típica do gênero. Aqui, o cineasta capta o Monument Valley – região que acabou mitificada pelos filmes western – com destreza e precisão, permitindo ao diretor de fotografia trabalhar com iluminação natural e conferir traços de pintura a todo o filme. Já os movimentos de câmera, repletos de panorâmicas e planos abertos, exaltam a pequenez do ser humano em meio à grandiosidade da natureza e, sobretudo, sua imponência em dominá-la.

Nesse sentido, o que soa ser o principal interesse em Rastros de Ódio é a ambiguidade dessa dominação, presente na relação entre a imensidão de paisagens áridas com a insignificância dos homens retratados, mas, principalmente, do instinto mais bruto e agressivo do ser humano. Isso é o que torna o longa de Ford uma obra especial dentro de um gênero que o próprio diretor ajudou a consagrar. Agora, ele revisita as fundações do seu país e da representação que estes filmes propõem para evidenciar o racismo com a cultura indígena e o comportamento odioso, agressivo e aniquilador normalizado nos Estados Unidos.

Abarcando essa proposta, a trama inicia quando o melancólico Ethan Edwards (John Wayne), um ex-combatente derrotado na guerra de Secessão, retorna para a casa de seu irmão a tempo de encontra-los uma última vez, antes de todos serem assassinados e sua sobrinha Debbie (vivida por Lana Wood na infância e Natalie Wood quando mais velha) ser sequestrada pela tribo de Comanches autores do ataque. Assim, o filme se desenrola em uma busca de anos em que Ethan e seu sobrinho Martin procuram por Debbie em uma árdua jornada Monument Valley adentro e que levantará, gradativamente, o ódio e preconceito nutridos pelo protagonista ao longo de toda sua vida.

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A fotografia de Winton C. Hoch capta a beleza do Monument Valley a partir da luz natural, conferindo enorme plasticidade ao longa

Com o desenrolar da trama e o passar dos anos, Ethan destila sua repulsa aos indígenas de forma asquerosa, o que, inclusive, é um dos pontos – junto das inúmeras escolhas de atores brancos para interpretar os antagonistas nativos – que fazem com que Rastros de Ódio seja um dos filmes de John Ford mais criticados pelo racismo.

É verdade que a relação que o protagonista tem com a cultura indígena é problemática e, por mais que o roteiro de Frank S. Nugent os retrate como antagonistas selvagens, o diretor articula tudo com uma problematização latente e, assim, cria uma relação voltada para o instinto da violência – seja do homem ocidental branco ou dos comanches que, na visão do protagonista, não conhecem o comportamento civilizado.

O catalisador dessa ambiguidade é Ethan, que torna sua longa busca de resgate por Debbie em uma jornada de assassinato, uma vez que ele tem certeza de que sua sobrinha foi assimilada pela cultura indígena e corrompida por uma natureza diferente daquela que considera aceitável.

Em uma cena, o protagonista encontra um Comanche enterrado debaixo de uma pedra, como mandam as tradições de sua tribo. Ethan atira nos olhos do nativo já morto e explica seu ato sem sentido como uma forma de impedir que o espírito do indígena não consiga adentrar o mundo espiritual e seja obrigado a vagar eternamente pelo mundo terreno. Por mais repugnante e odiosa que a passagem seja, Ford trabalha com a câmera a reação desconfortável e o choque no olhar dos homens que completam a equipe de buscas, evidenciando que o rancor nutrido por Ethan o levou a um ponto de ódio cego tão grande que ele se dispôs a conhecer as crenças da tribo, apenas para poder desrespeita-las.

Por outro lado, a relação construída entre o protagonista e Martin (Jeffrey Hunter) – o sobrinho que tem uma herança Comanche e o acompanha na jornada – contrapõe o ódio destilado pelo protagonista e coloca seu preconceito gradativamente em cheque, na medida em que vagam pelas paisagens desoladas.

Por mais que a figura de Ethan seja odiosa, ele é apresentado de maneira dúbia e sem romantização. É claramente movido por amargor, melancolia, solidão e ódio, mas sua relação com Martha (Dorothy Jordan), mãe da família, dá vislumbres de um amor passado não concretizado por meio dos olhares singelos e ternos que John Wayne e Dorothy Jordan trocam incessantemente.

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Ethan (vivido por John Wayne) é o personagem símbolo do revisionismo auto-referente que o diretor John Ford propõe de si mesmo e do gênero que ajudou a construir

Inclusive, ter John Wayne, o homem que viveu diversos heróis americanos fictícios na tela, para este papel é sintomático. Wayne faz um de seus melhores trabalhos ao emanar todas as sensações intensas e os sentimentos perturbados do ex-combatente, mantendo um semblante imponente, ao passo que traduz leveza e ternura no olhar nas poucas sequências em que isso é necessário. Tanto o diretor quanto o ator têm consciência do que estão levando para a tela e tornam Ethan em um símbolo maior do que apenas aquele homem: ele representa parte do imaginário do Western enquanto gênero e, também, de práticas comuns a história dos Estados Unidos.

Se Ford propõe uma revisão temática do gênero, há também um trabalho de olhar para si mesmo, não só por ter sido um dos principais autores deste estilo, mas por ter na figura intragável de seu protagonista características que sempre foram ditas sobre o diretor. É, também, um personagem que reflete a dureza do próprio cineasta e seu processo de se confrontar.

De tanto a dizer sobre esta obra profunda, cabe apontar o desfecho poético e bonito que arremata Rastros de Ódio. Wayne é enquadrado sendo deixado de fora de um momento de felicidade e esperança, mantido em sua condição de isolamento e solidão que tanto lhe acompanha. Não há redenção, não há prêmio ou reconhecimento por sua jornada. O que temos é o arremate de uma obra prima, que expõe a manutenção da condição violenta de seu protagonista, de um país e do Cinema como arte.

João Dicker

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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