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Ampulheta / “O Sétimo Selo” (1957)

[tempo de leitura: 4 minutos]

Vasculhar a filmografia de um cineasta a procura de clássicos pode parecer fútil, mas são inúmeras as obras de Ingmar Bergman que conquistaram o imaginário popular e uma reverência especial como marco cultural. O Sétimo Selo (1957) é um destes trabalhos seminais do diretor sueco que, em 1 hora e 36 minutos de projeção, nos leva a refletirmos sobre a busca humana por um sentido a partir da relação ambígua entre a fé, a vida e a morte.

Os questionamentos se revelam na jornada de Antonius Block (Max Von Sydow), um cavaleiro medieval que, acompanhado de seu escudeiro Jons (Gunnar Bjornstrand), retorna para casa após 10 anos nas Cruzadas. Em seu regresso, o protagonista se depara com a Morte (Bengt Ekort) e, na tentativa de ganhar mais alguns momentos de vida, a desafia para uma partida de xadrez que vai se desdobrando ao longo de sua chegada.

O mais impressionante em O Sétimo Selo é a sutileza de Bergman para trabalhar situações tão diretas quanto subjetivas. É interessante que o filme data do final dos anos 50, época em que o cinema se distanciava cada vez mais de sua fase muda. Bergman faz esse distanciamento mantendo como herança uma encenação sustentada pela expressividade dos atores, ao mesmo tempo que a renova com uma abordagem formal muito moderna. Todos os elementos da linguagem ficam latentes nesse fluxo entre simbologias e analogias óbvias, relacionadas a uma ambiguidade na dramaturgia – proposta tanto em texto pelo roteiro quanto visualmente na direção.

Neste sentido, a fotografia de Gunnar Fischer ajuda nessa relação ao retratar o mundo em preto e branco, servindo de metáfora para o embate entre luz e trevas sem separações maniqueístas. A sequência em que Block toma alguns minutos de sua viagem para adentrar numa paróquia e confessar perante um símbolo de Cristo é construída sob uma iluminação que reforça a melancolia das indagações internas traduzidas na solidão do cavaleiro.

A iluminação soturna reforça essa ambientação – a própria Igreja, afinal – como um espaço obscuro em que Block não encontrará clarividência de suas questões e, sobretudo, do grande sentido da vida. Por outro lado, Bergman resguarda uma tradição do cinema mudo durante toda a projeção ao se preocupar em focar a expressividade da atuação compenetrada e arrebatadora de Max Von Sydow, permitindo que a força da interpretação complemente a encenação. É como se o silêncio de Deus se passasse no rosto do ator.

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Em “O Sétimo Selo”, Max von Sydow entrega uma atuação para marcar a história, encorporando as dúvidas e profundidade do texto de Bergaman por meio de suas expressividade

Ainda sobre a ambiguidade da proposta visual, as sequências que envolvem o grupo de artistas mambembes que perpassam o caminho de Block são filmadas com mais luz, preenchendo a tela com uma sensação mais leve e um sopro de vida. Esse artifício é preponderante para uma das cenas mais fortes de O Sétimo Selo, quando a performance dos atores é interrompida por uma procissão de infectados pela Peste Negra que se chicoteiam e punem o próprio corpo na medida que titubeiam pelo trajeto. A relação entre o cavaleiro e estas figuras que enfrentam o lento apodrecimento é curiosa. A iminência da morte mergulha o protagonista em uma espiral de questionamento pautada em um vazio interior, enquanto as figuras mórbidas da procissão, que já sentem os sintomas da sua hora de partir, aderem à autoflagelação como punição dos pecados cometidos. Se Block está em busca do sentido da vida, os doentes já o abdicaram e abraçam a culpa gerada pelo carnal.

Das elucubrações vocalizadas pelo cavaleiro, Bergman dá um arrojo visual e um estofo dramático às metáforas e indagações propostas. A beleza aqui é a sutileza de levantar questões referentes à religiosidade, à relação com a fé e, principalmente, ao cristianismo. Seria a Morte o encerramento da vida criada por Deus? Ou apenas um rito de passagem e, por que não, de aproximação à figura divina? Seria a Morte a libertação do sofrimento em um mundo assolado pela Peste Negra? Ou a punição final aos pecadores que sofriam com a ira divina ao longo desses anos?

Todas essas questões servem à dramaturgia de Bergman. A cena em que o cavaleiro e a Morte estão sentados na praia frente ao tabuleiro de xadrez se tornou símbolo de O Sétimo Selo e – assim como o grande clássico que o filme é – acabou eternizada no imaginário popular. A simbologia desse momento é evidenciada no jogo de xadrez que é a vida humana, uma constante tentativa de postergar o momento de partir para termos mais tempo para encontrar o sentido da existência.

A própria presença da Peste Negra se dá, também, a partir de uma dualidade visto que acompanhamos diversas figuras infectadas pela doença durante o regresso do cavaleiro (em uma demonstração objetiva da presença da doença); ao passo que a resolução de Block ao final do filme denota a possibilidade de que ele próprio havia contraído a doença (resolvido em uma alegoria nos minutos finais).

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Cena da “danse macabre”, em O Sétimo Selo de Ingmar Bergman

Apesar de o duelo de xadrez ser a cena mais emblemática de O Sétimo Selo, talvez a que melhor resuma a sua essência seja um dos planos finais. Logo após o momento em que Block é finalmente vencido, tenta uma última promessa em vão e se vê na iminência de aceitar seu destino último, Bergman nos presenteia com o momento mais impactante de seu filme: a dança da morte. Mencionado e explicado em outra passagem da trama, quando Jons, o escudeiro, entra em uma Igreja e dialoga com um pintor que está retocando as paredes da instalação, somos apresentados ao conceito da “danse macabre”, uma representação do momento em que a Morte leva os falecidos para o outro lado.

E assim, Bergman encerra O Sétimo Selo: Com uma imagem ambígua, tão direta quanto simbólica, que não responde as dúvidas de Antonius Block e evidencia a dualidade poética entre morte e vida. Não como dois opostos que se enfrentam em uma partida de xadrez, mas como figuras de mãos dadas que dançam em uma mesma direção.


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O Sétimo Selo está disponível para assistir no canal do Youtube do Cine Antiqua Purple.
João Dicker

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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