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Ampulheta / “O Enigma de Outro Mundo” (1982)

[tempo de leitura: 4 minutos]

Assistir à O Enigma de Outro Mundo em tempos que se discute conceitos como o “pós-horror” ou o “meta-terror” é extremamente revigorante. Se os entusiastas dessa nomenclatura apregoam como virtude nos filmes contemporâneos uma roupagem do “arthouse” para o gênero, o que John Carpenter faz nesta obra prima é oposto: ele recorre a estética de filme B e na simplicidade como sofisticação para entregar uma grande obra do terror que ecoa, tanto no uso da linguagem como no tema, a dificuldade humana em viver coletivamente.

Propor uma temática principal para O Enigma de Outro Mundo é um exercício um tanto quanto abstrato. Por mais que o filme tenha temas mais evidentes – a paranoia social; o isolamento; o ímpeto violento humano e a dificuldade de lidar com o diferente – o longa emana uma aura de incomodo que denota a disposição de Carpenter para provocar tais questionamentos. Porém, o caminho que o diretor opta para dar vida ao roteiro de Bill Lancaster é por meio de uma encenação que, a todo momento, trabalha com uma câmera contemplativa e desconfiada.

Esse registro desconfiado recai sobre a história de uma equipe de cientistas dos EUA que conduzem pesquisas na base militar da Antártida. Quando cientistas Noruegueses cruzam seu território caçando um cachorro em fuga, os americanos recebem o cão sem desconfiar que ele carrega dentro de si um ser extraterrestre (ou “uma coisa, como no título original do filme “The Thing”) capaz de se transformar em seu hospedeiro.

O que Carpenter faz de melhor aqui é equilibrar perfeitamente o terror psicológico com um elemento gráfico presente e forte. Demarcando um ritmo lento para a narrativa, o diretor conduz o espectador em um jogo de sugestão ao usar da câmera como observadora na medida certa: ele não mostra demais, apenas o suficiente para sugerir um potencial perigo.

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Assim, a tensão é potencializada e ganha um estofo dramático ainda maior quando o diretor explora dos cenários enxutos e ambientes fechados – inclusive, o trabalho de design de produção e direção de arte aqui é impecável – para tratar da claustrofobia ao enquadrar seus personagens, recorrentemente, em planos fechados. Complementando todo esse trabalho, a formidável trilha sonora do gênio Ennio Morricone adota um tom evocativo, quase que de uma clarividência do que está por vir, anunciando um acontecimento que já está posto nessa tensão generalizada.

Ao construir bem essa atmosfera enervante e paranoica para os personagens, Carpenter recorre ao grotesco e a estilização de cenas gráficas para impactar e chocar. As sequências em que a “a coisa” se revela e mata seus hospedeiros são impressionantes, tanto pelo gore proposto quanto pelo belo trabalho de efeitos práticos e computação gráfica.

A opção pela estética de filme-trash é tão corajosa quanto interessante, porque se a longo prazo há quem questione que O Enigma de Outro Mundo “envelhece mal” por este aspecto, por outro lado o filme assimila muito bem a relação entre o terror atmosférico e o choque visual tão essenciais ao gênero de terror.

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Para além do incomodo e da desconfiança presente na relação entre o grupo de cientistas que é motivada pela presença “maquiada” de um ser extraterrestre, Carpenter encontra uma maneira consistência de dar mais profundidade a o que seu roteirista sugere quanto a temática do isolamento e, principalmente, nessas questões de coletividade.

Ao longo dos anos, surgiram diversas interpretações para um possível tema central, passando pelo racismo (existe uma tensão étnica-racial presente na dinâmica de alguns personagens) e por uma metáfora à AIDS (afinal, o filme é dos anos 80), mas todas as proposições recaem, em algum momento, sobre um olhar mais geral quanto a um incomodo inerente a experiência coletiva humana.

É incrível como a narrativa se aproveita de um catalisador não-humano – um extraterrestre, afinal – para expurgar o pior do ímpeto violento e destrutivo da humanidade. Uma narrativa que assimila muito bem uma perspectiva crítica e até mesmo pessimista para uma vida em sociedade que, a todo momento, tem sua dinâmica social abalada.

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Sobretudo, O Enigma de Outro Mundo segue como uma obra seminal para qualquer fã do cinema de horror ou para qualquer pessoa que esteja aberta ao excelente trabalho do virtuoso de John Carpenter. Um filme que trazia as telas de cinema, há quase 30 anos atrás, o que entusiastas do terror celebram na produção contemporânea. Nos que dizem que O Enigma de Outro Mundo é datado ou que envelheceu mal, nestes eu não confio.

João Dicker

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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