Ampulheta / “Cléo das 5 às 7” (1962)

Ampulheta / “Cléo Das 5 às 7” (1962)
[tempo de leitura: 3 minutos]

Lembrada como integrante da Nouvelle Vague, a cineasta Agnès Varda é dona de uma filmografia prolífica que, por mais de 60 anos, presenteou o mundo com obras intrigantes. Cléo das 5 às 7 (1962), seu segundo longa-metragem, não é o filme que demarca o início do movimento, nem é o “filme-testamento” do que se propunha o coletivo de jovens críticos e cineastas. Se engana quem pensa que isso indica uma falta de qualidade, pelo contrário: Cléo das 5 às 7 é um filme que carrega o ímpeto autoral e transgressor de Varda como mulher ativista e cineasta, considerada uma das mais importantes da história do cinema.

Ao longo de toda sua filmografia, Varda levou a finco sua inquietação como artista e realizadora, se mantendo constantemente disposta a experimentar com a linguagem cinematográfica, fosse em ficções, documentários, longas ou curtas-metragens. Em Cléo das 5 às 7, ela propõe uma incursão, quase que em tempo real, de 1 hora e meia de um dia na vida da protagonista interpretada por Corinne Marchand. Nessa passagem de tempo, acompanhamos a cantora Cléo num período importante e melancólico em que aguarda o horário de uma consulta médica para receber um possível diagnóstico de um câncer.

É interessante como Varda equilibra um tema pesado ao retratar uma mulher desolada pela iminência da morte com tamanha sutileza. Isso se dá especialmente pela leitura que a diretora tem da situação, o potencial que ela percebe na história e, principalmente, pela forma que opta para contá-la.

A inquietação com que Varda filma e desenvolve a narrativa dita o ritmo de passagem das duas horas na cabeça de Cléo: uma intensa e apreensiva discorrida de tempo em que, uma vez incerta e insegura de sua própria condição, a protagonista passa a ressignificar os espaços em que se relaciona e trafega com um olhar de encantamento e de redescoberta.

Surge daí uma dinâmica de deslumbre com o mundo que a cerca. A câmera é ativa e contemplativa na mesma medida, inquieta nas tomadas que observam as coisas mais ordinárias de Paris: as conversas de pessoas quaisquer nas mesas de restaurante; o papo com a taxista e as notícias na rádio; a prova de chapéus na loja; a companhia de um estranho no parque. Tudo se transforma em uma sequência de atividades que servem para passar o tempo e amenizar a sensação de apreensão da protagonista.

É um filme que emana bem a essência disruptiva do cinema da Nouvelle Vague, do gosto por filmar na rua e propor uma relação espacial muito particular de um cinema moderno, em constante trânsito. Desta ressignificação dos espaços, Cléo também passa a se enxergar de outra forma.

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Em “Cléo das 5 às 7”, a protagonista transita por Paris em um constante processo de reflexão

Todas as questões íntimas da personagem não são colocadas de forma muito ilustrativa, como quando o taxista a pergunta para onde ir, a cantora responde “em frente”, já que ela, de fato, não tem um destino a chegar por estar vivendo a jornada da descoberta e redescoberta de si mesma, de se confrontar e relacionar com tudo que a cerca.

O encerramento de Cleo das 5 às 7, quando a tranquilidade toma conta da protagonista, é de uma beleza e simplicidade ímpares. O olhar e a mudança da personagem condizem com o ritmo mais lento e o compasso do caminhar da câmera. Antes uma parceira da protagonista e do espectador na observação inquietante do mundo, agora se tranquiliza para se voltar a Cléo e sua tomada de consciência. Seja ela da sua condição de saúde, de seu lugar no mundo, de seus sentimentos, de sua insubmissão ou de que faz parte do cinema de Agnès Varda.


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O filme Cléo das 5 às 7 está disponível no TeleCinePlay.
João Dicker

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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