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Ampulheta / “A Marca da Maldade” (1958)

[tempo de leitura: 3 minutos]

É natural que ao falar de Orson Welles uma das primeiras associações a serem feitas seja com Cidadão Kane. Diretor responsável por um dos filmes mais cultuados da história do cinema, Welles tem em sua filmografia um dos mais intrigantes filmes noir: A Marca da Maldade (1958). Aqui ele trabalha a profundidade de campo como um elemento ambíguo para criar um conto sobre crimes, violência e, principalmente, sobre a deturpação humana e sua pré-disposição a se corromper.

A história é situada em Los Robles, uma cidade de fronteira entre México e Estados Unidos repleta de bares, bordéis e figuras dúbias. A abertura do longa, um primoroso plano-sequência de 3 minutos, passeia com a câmera do momento em que uma bomba é colocada no porta-malas de um carro até ele fazer a travessia da fronteira para, em solo mexicano, explodir. Durante o trajeto, vemos o casal protagonista cruzar o caminho do veículo e conhecemos, então, duas das três principais figuras de A Marca da Maldade: o policial Ramon Miguel Vargas (Charles Heston) e sua esposa Susan Vargas (Janet Leigh). Alguns momentos a frente, logo após a explosão, conhecemos o terceiro pilar do embate moral que acompanharemos em 1h35 minutos de projeção: o corrupto policial Hank Quinlan (Orson Welles).

O confronto se desenrola a partir da investigação com Vargas discordando dos métodos imorais de Quinlan, em uma narrativa que nos apresenta situações para testemunharmos esse embate moral nas escolhas do processo de justiça, como no interrogatório tendencioso com um suspeito e pela tentativa de forjar uma incriminação, construindo com perfeição essa oposição moral.

O interessante é que Welles se interessa em quebrar com essa dicotomia ao expor como Vargas está somente a um dia ruim de se tornar Quinlan. Não porque ele é ruim, em essência ou intimamente – afinal, o retrato de A Marca da Maldade não é maniqueísta como pode parecer – mas porque ele é humano e propenso a se corromper assim como qualquer um, especialmente quando provocado e guiado por um caminho tortuoso de deturpação.

Como já foi dito, em A Marca da Maldade, Welles recorre mais uma vez a uma virtude de seu cinema: a habilidade de usar a profundidade de campo para potencializar a ambiguidade dos acontecimentos. Aqui, o cineasta e seu diretor de fotografia Russel Metty trabalham o contraste na iluminação entre o claro e o escuro, além de um jogo de sombras típico do noir, para tornar visual toda a atmosfera turva que paira sobre os personagens.

Assim, o filme articula um equilibro entre uma abordagem atmosférica soturna com estes elementos, junto de uma abordagem mais pessoal, ao acompanhar os dois personagens como opostos e enquadrar seus atores em alguns planos fechados. Essa abordagem que Welles se propõe funciona, principalmente, porque o diretor entende que a temática de moralidade tem um efeito universal que passa, ao mesmo tempo, por uma relação particular de cada um.

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Orson Welles (esquerda) e Charles Heston (direita) interpretam dois policiais diametralmente opostos;

“Eu não sou um policial agora. Sou um marido. O que você fez com ela? Onde está minha esposa? ”, questiona Vargas no seu momento de erupção de raiva e desespero, quando está a um passo de cruzar a alinha da decência e seguir o mesmo caminho de deturpação de Quinlan. É a sequência que Welles evidencia como a moralidade humana é volátil, um líquido que ferve no aguardo do seu ponto de ebulição. E quando Vargas percebe o golpe que sofreu e o ataque a sua esposa, ele é desnudado de qualquer semblante e aparência de bom moço, liberando seu instinto mais violento e agressivo.

Nesta grande obra que toca nas bases do cinema noir, Orson Welles trata da temática do crime, da violência e da deturpação para além da degradação moral de seus personagens, trazendo um estofo dramático maior ao pincelar temas relacionados a xenofobia, as drogas e a máfia. Contudo, o mais interessante em A Marca da Maldade é como o cineasta cria, com tamanho esmero, um conto noir cinematográfico ambíguo e interessante sobre a propensão humana a se corromper.

ASSISTA
A Marca da Maldade” está disponível para assistir no TeleCinePlay

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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